Os Estados Unidos, usando suas clássicas maquinações bizantinas, proclamam que a sua guerra contra o Irão «está terminada», enquanto o antigo Secretário de Defesa, Chuck Hagel, e o antigo Secretário-adjunto da Defesa, Kurt Campbell, durante um debate sobre a guerra com o Irão e China, moderado pelo politólogo Robert Pape, da Universidade de Chicago, defendem uma «reconfiguração do poder mundial», o que significa uma «viragem da posição dos Estados Unidos no mundo [1] ».

O bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz e o contra-bloqueio norte-americano na periferia — particularmente a partir do Mar Arábico que bordeja o Golfo de Omã — mostraram o risco que afecta várias substâncias estratégicas, tais como o hélio. Um assunto pouco discutido é a cablagem submarina que garante as ligações Internet entre os países costeiros da parte ocidental do Golfo Pérsico, como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, que eu expus no meu artigo «O trunfo escondido» como uma cartada muito previsível por parte do Irão, e o impacto sobre o digital que daí resultará [2] .

Também não se pode ignorar mais a guerra dos «pontos de estrangulamento», como a que se dá no Estreito de Ormuz, e que ameaça se deslocar para o Estreito de Bab al Mandeb (este nome significa “Porta das Lágrimas” em árabe) e pode entravar a navegação desde o Oceano Índico /Golfo de Adem /Mar Vermelho /Canal de Suez / até ao Mediterrâneo Oriental [3].

Segundo o controverso Ambrose Evans-Pritchard, do jornal monarquista britânico The Telegraph , «a próxima consequência da Guerra do Golfo já está a chegar, enquanto o bloqueio do Estreito de Ormuz continua : uma penúria de microchips poderá muito bem estar à vista [4] ». Evans-Pritchard revela uma realidade : «desde o início da Guerra do Golfo o mundo perdeu 40% do seu aprovisionamento de hélio, produzido em primeiro lugar no Catar, depois na Rússia.»

Para começar, a economia digital mundial põe em perigo a bolha da inteligência artificial (IA), uma vez que «a indústria não pode fabricar IA de ponta ou semicondutores de menos de 10 nanometros» sem a magia do hélio, o que afecta igualmente os veículos e os computadores. Evans-Pritchard também está fascinado pela «necessidade de hélio para outras prioridades importantes : energia nuclear, armamento sofisticado, o aeroespacial, cabos de fibra óptica, computação quântica, cromatografia e máquinas de ressonância magnética».

Evans-Pritchard sublinha correctamente que «não existem substitutos simples», já que «o hélio líquido é a substância mais fria do planeta, com um ponto de ebulição de -269 graus Celsius.» Ele explica que «o Catar fornece habitualmente um terço do hélio mundial, como subproduto da produção de gás natural no seu imenso campo do Norte.»

Além disso, a iranofobia congénita de Evans-Pritchard leva-o a esconder o facto de que o Irão dispõe de reservas significativas de hélio no gigantesco campo de South Pars — o maior do mundo — e que desenvolveu capacidades de extração optimizadas [5]. Não se deve negligenciar o facto do Irão deter 17% de reservas «comprovadas» de gás natural. Apesar das sanções deletérias impostas por diversas administrações norte-americanas, o Irão é o terceiro maior «produtor» de gás natural, depois dos Estados Unidos e da Rússia.

A 11 dias da visita histórica de Trump à China, o South China Morning Post, sediado em Hong Kong, aponta precisamente para «a interação entre chips, petróleo e o Irão», que «levou os Estados Unidos a aumentar a pressão sobre a China em várias frentes estratégicas», já que as recentes medidas de Trump visam entravar o acesso aos semicondutores e às pequenas refinarias de petróleo chinesas [6].

Quantos trunfos poderá Trump ter em mãos nos 11 dias que precedem sua visita a Pequim, que é tão resiliente como o Irão ? Sorridentes, os Chineses acabam de presentear os Estados Unidos com dois pandas, a fim de amenizar as tensões.

Tradução
Alva
Fonte
La Jornada (México)
O mais importante quotidiano em língua espanhola (castelhana) do mundo

[1«The 2026 Hagel Lecture: America’s Role in Asia in Context of War with Iran», The University of Chicago, YouTube, May 2, 2026.

[2«“Carta Oculta” Muy Previsible de Irán: Afectación Digital en el Golfo Pérsico», Alfredo Jalife-Rahme, Substack, 29 de abril de 2026.

[3«EEUU/Israel vs Irán:¿Próximo “FIN DE SEMANA” de Guerra o Tanteos?», Alfredo Jalife y Juan A. Aguilar, YouTube, 1 de mayo de 2026.

[6«Chips, oil and Iran: why US is raising pressure on China before Xi-Trump talks», Ralph Jennings, South China Morning Post, Aprils 29, 2026.