Abstract
O presente artigo examina criticamente a pertinência da filosofia existencialista quando transposta para o contexto histórico dos países periféricos, tomando como referência a análise desenvolvida por Álvaro Vieira Pinto em Consciência e Realidade Nacional. Partindo do objetivo de avaliar a validade das categorias existencialistas — como angústia, liberdade indeterminada e confrontação com o nada — o trabalho argumenta que sua universalização é indevida, pois tais categorias refletem experiências espirituais e materiais próprias das sociedades europeias já consolidadas. A metodologia consistiu na análise conceitual de textos do existencialismo europeu e na leitura hermenêutica dos trechos centrais de Vieira Pinto, com foco na dimensão geopolítica que marca sua crítica. O resultado principal é a demonstração de que, para o pensador brasileiro, a situação histórica do subdesenvolvimento altera estruturalmente o sentido da existência humana, deslocando o horizonte do “nada” europeu para o “tudo por fazer” próprio dos povos periféricos. Conclui-se que a adoção acrítica do existencialismo constitui forma de alienação filosófica e intelectual, pois ignora as tarefas materiais que condicionam a realização da existência no mundo subdesenvolvido. A crítica vieirapintiana indica, ainda, as bases para uma filosofia da existência latino-americana fundada no imperativo histórico da transformação concreta e não na contemplação angustiada da subjetividade.