Abstract
O presente artigo analisa as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul como eventos politicamente produzidos no interior de dispositivos de poder que articulam território, população e gestão do risco. A reflexão mobiliza os conceitos de biopolítica e Racismo de Estado, conforme formulados por Michel Foucault, e de tanatopolítica, em diálogo com Giorgio Agamben, sustentando a tese de que a racionalidade neoliberal estrutura modos específicos de governo da vida e da morte. Nesse contexto, observa-se a produção de uma diferenciação sistemática entre existências protegidas e vidas expostas à precariedade, ao abandono e à morte evitável. O artigo examina as condições ético-sociais pelas quais essa racionalidade governamental contribui para a reprodução da injustiça ambiental e para o aprofundamento das desigualdades sociais. Do ponto de vista metodológico, trata-se de um estudo teórico-conceitual, próprio da filosofia política, no qual os dados empíricos referentes às enchentes de maio de 2024 são mobilizados com função hermenêutica, operando como caso-limite para a inteligibilidade de dinâmicas biopolíticas contemporâneas. Argumenta-se que a ausência persistente de políticas estruturais de enfrentamento das desigualdades e o desinvestimento em infraestrutura pública não configuram meras falhas administrativas, mas expressam uma lógica de governo que subordina a proteção da vida a critérios econômicos e políticos. Conclui-se que a reconstrução necessária ultrapassa o plano material, exigindo uma resposta ética e política capaz de romper com a tanatopolítica dirigida às populações mais vulneráveis.