05 July 2026 @ 10:32 pm
40º dia de Citalopram, mais uma vez. Quase dois meses desde que meu corpo entrou em colapso, e até hoje não entendo o real motivo. Talvez eu nunca entenda.

Já são quase seis semanas sem comer direito, desenvolvendo um certo distúrbio alimentar. Perdi peso. É ótimo olhar no espelho e ver a barriga menor, mas, ao mesmo tempo, reflito que talvez eu preferisse continuar no dilema de odiá-la, desde que estivesse aproveitando a vida como antes, sem carregar o fardo de dores abdominais o dia inteiro. É uma relação complexa: em um momento olho pra minha 'pancinha' e a rejeito, mas sei que ela representa a liberdade de viver. No outro, fico satisfeito com a minha aparência atual, mas arcando com o preço de não conseguir agir como uma pessoa comum. Eu sei que prefiro a primeira alternativa.

Aliás, nesses meus devaneios, venho pensando: o que é ser comum? O que é a normalidade?

Tentei por tantas vezes me encaixar nesse conceito. Escrevi inumeras vezes sobre isso: o quanto eu queria pertencer, ser aceito, não ter crescido com o medo constante da rejeição. Por esse motivo, passei a vida (e ainda passo) correndo atrás de conhecimento que me faça evoluir e entender que não preciso de tanta aprovação. Só que aí surge a minha hipervigilância, essa necessidade de controle que simplesmente não sai de mim. Nessas horas, penso que o melhor seria tolerar a loucura da minha própria existência e desistir dessa busca pelo padrão. Porém, nem isso eu consigo.

Estou com saudades de ficar "louco". Fora de mim. De desligar essa engrenagem que está sempre ligada na minha cabeça. Sentir, nem que seja por um instante, que não preciso ter medo ou vergonha. Álcool, LSD, maconha...?

Ontem, conversando com a minha irmã ao telefone, comentávamos sobre conhecidos que agora enfrentam problemas com drogas — ainda que nós dois tenhamos um exemplo disso desde que nascemos, que é o nosso pai. Disse a ela algo que venho percebendo, uma constatação meio triste e desoladora, mas que todo mundo ignora para manter as aparências: "Ninguém está bem". E realmente, quanto mais olho em volta e conheço as pessoas com quem convivo, mais percebo que está todo mundo enfrentando uma batalha psicológica profunda.

Não quero despejar os meus problemas em quem já está vulnerável, nem dizer que os meus surtos são piores que os de ninguém. Mas isso me faz pensar que, de certa forma, estou sendo forte ao tentar me tratar com lucidez. Por outro lado, também vejo como o caminho mais fácil para encarar tudo isso é a autodestruição, como meu pai fez e como algumas das pessoas sobre as quais conversávamos vêm fazendo.

Quando ando pelas ruas, observo quem está morando ali. Sei que grande parte caiu nessa situação pelo uso de substâncias, outros por transtornos mentais, e alguns simplesmente por falta de dinheiro. E isso me dispara o gatilho de que preciso trabalhar loucamente para guardar uma reserva enquanto tento cuidar da minha mente, para nunca chegar a esse ponto. É um temor que creio que muita gente sinta, mas que poucos têm coragem de verbalizar. Senti que precisava relatar isso aqui. E talvez esse medo seja uma das razões pelas quais eu tenha que ir ao escritório amanhã: para vestir a máscara, fingir que estou melhorando e que vai dar tudo certo. Essa é a suposta normalidade da vida.

Dizem que o Citalopram começa a estabilizar de verdade na sexta semana. Estou quase lá. Enquanto tudo ao redor parece instável, é hora de dormir. Amanhã começa um novo ciclo, e eu prometo para o meu eu de agora que as coisas vão se ajeitar. Mesmo que o resultado final não seja tão normal assim.
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