vagnerfoxx
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vagnerfoxx
2 dias atrás

​Tem Alguns Spoilers...

E se você encontrasse uma porta que levasse para outro mundo? Um mundo de paz, alegria, sabedoria e amor. Um mundo onde todas as coisas que buscamos são possíveis? Um mundo de todos, mas feito para aqueles que teimam em acreditar no amanhã.

​Casey não encontrou porta e nem janela, ela ganhou um pin.

​"Tomorrowland: Um Lugar Onde Tudo é Possível" esconde aí a sua maior grandeza. O filme não quer apenas nos contar uma história de ficção científica e aventura; ele quer nos resgatar desse mundo finito e aleijado. Numa época em que o cinema e o mundo se apaixonaram pela tragédia, pela ruína e pelo fim dos tempos, esta obra vai contra a Matrix, nos fazendo olhar para algo perdido e nos devolvendo o direito de sonhar com o futuro.

​Casey Newton (Brittany Robertson) reflete essa sede incontrolável por algo maior. Quando suas mãos tocam o broche, não é apenas o seu corpo que viaja; é a sua alma que enxerga o que a humanidade poderia ser se não tivesse desistido de si mesma.

​O visual reluzente de uma cidade retrofuturista erguida entre campos de trigo dourados é de um lirismo arrebatador — é o paraíso perdido que sempre esteve à nossa frente se não tivéssemos esquecido de olhar em nosso coração. A direção de arte e a fotografia criam uma atmosfera solar, nostálgica, que nos faz lembrar o porquê de gostarmos de cinema. Brad Bird conduz essa jornada com o ritmo impecável do cinema de aventura dos anos 80, combinando uma trilha sonora vibrante a atuações que dão pulso e coração a cada cena.

​O choque entre a resignação amargurada do velho Frank Walker (George Clooney) e a chama da juventude de Casey cria um contraste belíssimo sobre o que o tempo faz com os nossos sonhos. A decepção e a ressignificação de suas ilusões mostram o lado humano de um homem que ainda carrega as dores da infância. A enigmática Athena (Raffey Cassidy) revela o nó mais profundo desse peito velho, uma conexão afetiva e trágica que nos lembra que, até mesmo no meio de circuitos e engrenagens, pode habitar a forma mais pura de amor e sacrifício.

​Essa carga poética ganha um fôlego eletrizante através de uma ação ágil e extremamente divertida. A direção de Brad Bird resgata aquela energia inconfundível dos clássicos anos 80, onde o perigo é real, o romance é puro, mas o humor é afiado e preciso. A invasão da casa de Frank por andróides sorridentes transforma a paranoia de um cientista em um espetáculo visual dinâmico, com eletrochoques, engenhocas inacreditáveis e armadilhas brilhantes. Das perseguições desesperadas em alta velocidade até a decolagem épica de um foguete escondido no coração da própria Torre Eiffel em Paris, as cenas de ação não existem apenas pelo impacto: elas servem como a combustão que empurra nossos heróis nessa corrida contra o tempo para salvar o amanhã.

​Mas para salvar esse amanhã, o filme nos arrasta para um clímax de puro desespero no futuro! Correndo contra a contagem regressiva pro apocalipse e a visão inevitável do fim do mundo, Frank, Casey e Athena travam uma batalha final angustiante. É na iminência da destruição que o filme cobra seu preço mais alto: o sacrifício trágico e emocionante do amor de quem não foi feito pra amar.

"Tomorrowland: Um Lugar Onde Tudo é Possível" é uma ode aos incorrigíveis, aos otimistas, aos que não se conformam com o cinza do presente. O filme falha em ser apenas um entretenimento passageiro porque ele prefere ser um espelho, um lembrete incandescente de que a semente pra transformar o mundo sempre esteve plantada dentro de cada um de nós.

​O filme termina, mas ele rompe a tela e parece sussurrar em nossos ouvidos que esse lugar mágico não é um ponto fixo no mapa, mas um estado de espírito, um estado de consciência, uma chama que se recusa a apagar. A gente termina de assistir com a sensação agridoce no peito, de alguma forma colocar as mãos nos nossos bolsos, e encontrar esse pin ali... só pra lembrar que ser especial é nunca deixar de acreditar em si.

​Nota:

O roteirista Damon Lindelof e o diretor Brad Bird encontraram uma caixa misteriosa nos arquivos da Disney rotulada como "1952". Dentro dela havia documentos, fotografias, artes conceituais e modelos do período em que Walt Disney estava planejando a área de Tomorrowland para a Disneyland e o projeto original do EPCOT (que não seria um parque, mas uma cidade real do futuro!). Walt Disney era um otimista incorrigível que acreditava que a tecnologia salvaria a humanidade. Esse filme é o rascunho desse sonho.

vagnerfoxx
3 dias atrás

Tem Alguns Spoilers...

Existem ficções científicas com distopias que não precisam de naves espaciais, explosões ou viagens no tempo para congelar a nossa alma. Em "Não Me Abandone Jamais", o horror se veste de nostalgia. Como um quadro antigo pintado a óleo, o diretor Mark Romanek nos joga em uma Inglaterra bucólica, outonal, que parece presa em algum lugar indefinido entre a virada do século XIX e o pós-guerra. É um passado que engana os olhos, onde a barbárie foi tão normalizada que se esconde atrás de uniformes escolares, chás da tarde e relógios de ponto na entrada de um colégio interno de elite.

​O colégio Hailsham parecia o cenário de um clássico romance britânico sobre a infância, mas era, na verdade, um matadouro silencioso. Ali, Kathy, Tommy e Ruth cresceram como gado de abate, criados para servir de peças de reposição para uma sociedade egoísta. O que mais me assusta e impressiona não é a crueldade que ocorre oculta nos laboratórios, mas a passividade absoluta daqueles corpos. Ao contrário das grandes fugas de Hollywood, eles não se rebelam. Eles aceitam o matadouro como ovelhas, com uma resignação que corta o peito. Eles não lutam pela liberdade; eles lutam apenas pelo tempo, que, no limiar da juventude, parece um epitáfio de natimorto, um atestado de óbito escrito numa certidão de nascimento.

​A ficção vestida de drama se torna uma tragédia romântica avassaladora por causa de um triângulo amoroso juvenil que roubou o futuro. Uma intriga de infância, um amor de uma vida roubado por Ruth, deixa marcas profundas que contaminam o amanhã. E quando a maturidade chega, o que resta é uma busca desesperada por um adiamento — uma lenda urbana de que o amor verdadeiro poderia garantir um sursis, alguns anos a mais antes da inevitável conclusão.

​No centro dessa engrenagem que come seus corpos e tritura suas almas, a música de um radinho de pilha funciona como santuário. A canção "Never Let Me Go", gravada naquela velha fita cassete, torna-se o hino secreto de Kathy. É uma melodia que chora a brevidade das coisas, um eco poético onde ela abraça o impossível de uma esperança que sempre morreu. A trilha sonora do filme não serve para nos distrair, mas para amplificar o silêncio daquela tragédia: ela é o registro de um amor que corre contra um relógio que já nasce quebrado, fazendo lembrar que tudo já está perdido.

​O tempo passa, e a infância bucólica dá lugar à crueza cirúrgica da realidade. A maturidade chega para eles não como uma promessa de vida, mas como uma intimação do fim. Kathy, quase sem alma e sem vida, assume a função quase masoquista de cuidadora, sendo obrigada a assistir, com uma calma profissional fria e devastadora, os corpos de seus próprios amigos de infância serem desmantelados, doação por doação, naquela Londres cinzenta e gélida. Não há o alarde dos grandes dramas de Hollywood; o horror em "Não Me Abandone Jamais" mora na normalidade com que o mundo os devora. É a barbárie educada de jaleco branco e voz mansa.
​E quando a lenda urbana do "adiamento" desaba diante deles, revelando que o sistema não se importa com a arte ou com a verdade dos sentimentos, o filme nos entrega seu momento mais dilacerante.

O grito de Tommy (Andrew Garfield), sozinho no meio de uma estrada escura, não é apenas um grito de raiva; é o som de um homem que já foi operado, que sente o próprio corpo se esvair — um homem que viu sua alma morrer e que agora compreende a extensão da própria impotência contra um mundo que não os reconhece e que os abandona na mesa fria da sala de operação antes de jogá-los na cova. Ele grita pela certeza de que o amor, por mais legítimo e puro que seja, nunca teve uma chance contra o concreto frio e duro daquela sociedade sem coração.

​No fim, após a inevitável "conclusão" de Tommy, nos resta apenas o olhar melancólico e perdido de Kathy para o horizonte, diante de um campo aberto cercado por arames farpados. Aquela imagem se assemelha a uma pintura triste de despedida, um retrato que não mostra um rosto, mas a face oca e amarga de um corpo sem alma. Kathy observa os pedaços de plástico e lixo presos na cerca, balançando ao vento, como se fossem fragmentos de sua própria juventude que ficaram pelo caminho, como um alerta de que a sua hora de doar se aproxima.

​Ela olha para a paisagem esperando por um amanhecer que nunca amanhece, uma luz que teima em surgir no céu, mas que nunca traz calor ou esperança para quem foi criado apenas para sumir na escuridão. O diretor Mark Romanek, junto de Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield, entregam não apenas uma ficção científica, mas um espelho sujo sobre a brevidade da nossa própria existência, num mundo que não reconhece e nem se importa com a luz da vida.

"Não Me Abandone Jamais" é uma moldura inesquecível para uma história onde o amor, por mais puro e legítimo que fosse, perdeu tragicamente a corrida contra o tempo, deixando na tela um silêncio que ecoa na alma da gente por muito tempo após os créditos subirem.

vagnerfoxx
4 dias atrás

​"Se eu lhes falasse sobre ela, o que diria? Diria que viviam nos últimos dias do reinado de um príncipe encantado? Ou diria que era uma princesa sem voz? Talvez eu apenas os avisasse sobre a verdade do que aconteceu. O conto de amor e perda. E o monstro que tentou destruir tudo."

​Há histórias de amor difíceis de contar, com sentimentos que as palavras não podem descrever. A Criatura era um rei capturado de uma natureza fantástica e perdida das selvas amazônicas, mas e ela, a Elisa? Ela seria uma rainha perdida na cidade caótica de concreto e asfalto?

​Elisa parecia viver em outro mundo; a pureza de seu coração não precisava do som da sua voz para se comunicar. Ela, muda, dizia mais coisas com a presença de seu olhar do que com os sons angustiantes que tentava exprimir. Elisa era uma garota comum, uma jovem simples, trabalhadora, que encontrava seus prazeres no brilho da televisão, nos musicais de cinema e na companhia de seu único amigo, tudo ao sabor de uma torta de limão não muito saborosa.

​Esse mundo não era o céu dos musicais da época, mas o lugar onde ela trabalhava, esse sim beirava o inferno. Todos os dias, Elisa descia as escadas do seu apartamento — que ficava em cima de um cinema velho — para trabalhar dentro de um vulcão. O laboratório militar era o oposto das comédias românticas que passavam na tela do seu prédio. A lava negra daquele lugar oculto fervia medo e horror. E foi lá que aprisionaram uma criatura, um ser estranho, um Deus das águas doces que passou a viver no cativeiro.

​O que para Elisa era um rei incompreendido, para o resto do mundo era apenas uma anomalia a ser torturada, subjugada e dissecada. No comando desse inferno estava o demônio Strickland — o monstro real da história, um vilão moldado pela rigidez e pelo preconceito de sua espécie, reflexo de uma sociedade que odeia e tenta destruir tudo o que é diferente e que ela não consegue controlar.

​Mas e se eu falasse do amor deles? O que eu falaria? O amor deles não era fabricado, planejado ou desenhado por ninguém; ele não era o resultado de uma experiência de laboratório. O amor deles aconteceu; acontece da forma livre e misteriosa com que as verdadeiras histórias de amor surgem na vida. Nasceu do olhar, do silêncio, da compaixão de Elisa ao testemunhar o sofrimento daquele ser. Ela não via um monstro sangrando naquelas sessões de tortura; ela via a si mesma, a sua própria solidão refletida em escamas e silêncio. E foi no reflexo do espelho dessa dor que encontrou forças para uma simples faxineira desafiar um império militar inteiro e achar uma saída para salvá-lo do fim.

​O mundo seco de concreto não aceita ser vencido pela água e suas formas. A fuga desesperada desencadeia a loucura cega do demônio que mora no vulcão. Strickland, o homem, consumido pelo ódio e pela obsessão, não aceita ter seu objeto de prazer fora da sua inquisição. Ele caça os dois até as últimas consequências, até o fim do mundo, até o fim de tudo. É a batalha do grito contra o silêncio, da brutalidade humana contra a magia da natureza. No fim, a rigidez do asfalto racha, o vidro se quebra, o sangue se mistura na chuva e o amor encontra a sua verdadeira forma.

​Livre, profundo e eterno. E longe do alcance dos verdadeiros monstros da terra.

  • Irone 1 semana atrás

    E, vamu que vamu😊, tem muito talento aí 👏👏👏
    Conta comigo curtindo sempre!

  • Irone 1 semana atrás

    Obrigada, Vagner!
    Bom ter você aqui, parabéns pelas resenhas.

  • L A R A 2 semanas atrás

    Ei, Vagner! Tudo joia? Como é que está? Faz tempo que não passo por aqui, só marco filme. Ontem assisti a um filme e a primeira coisa que pensei quando terminei foi: "Preciso indicar ao Vagnão". Então estou aqui pra te perguntar se vc já viu "Obsessão" (2026). Rapaz, se não viu, assista!! Abração!!