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Os alem�es no Brasil: uma s�ntese. |
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Giralda Seyferth Os primeiros imigrantes alem�es chegaram ao Brasil antes da independ�ncia, no contexto da abertura dos portos, constituindo um grupo de comerciantes com atividades de importa��o/exporta��o estabelecido no Rio de Janeiro e organizado socialmente atrav�s da Gesellschaft Germania, uma associa��o de natureza �tnica fundada em 1821. Alguns alem�es tamb�m integraram os tr�s primeiros projetos de coloniza��o autorizados pelo governo portugu�s na Bahia, dos quais apenas a col�nia Leopoldina, fundada pelo naturalista Freyreiss em 1818, costuma figurar na historiografia da imigra��o. No entanto, o fracasso dessas iniciativas e a pouca expressividade estat�stica - pouco mais de 200 imigrantes registrados antes de 1822 (Fouquet, 1974) - fizeram da funda��o de S�o Leopoldo, no Rio Grande do Sul, em 1824, o marco inaugural da imigra��o alem�, desde ent�o estreitamente associada ao povoamento e coloniza��o da regi�o sul. Entre 1824 e 1830 os registros, bastante d�spares, indicam a entrada de menos de sete mil alem�es destinados �s �reas coloniais abertas no sul (uma delas na prov�ncia de S�o Paulo) pelo governo imperial e aos batalh�es de estrangeiros agregados ao ex�rcito brasileiro, criados para lutar contra os portugueses (nas prov�ncias do norte) e na guerra cisplatina. � exce��o dos comerciantes estabelecidos no Rio de Janeiro, n�o houve imigra��o espont�nea de alem�es pois o governo imperial, interessado em promover o povoamento e coloniza��o, sobretudo na regi�o sul, subsidiou os colonos e pagou a agenciadores para traz�-los ao pa�s. A imigra��o foi interrompida em 1830, com a promulga��o de uma lei proibindo despesas com a coloniza��o estrangeira, sendo retomada quase quinze anos depois com a funda��o de col�nias alem�s no sul, no Rio de Janeiro (Petr�polis) e nas terras altas do Esp�rito Santo. A a��o dos agenciadores a servi�o do governo imperial, a promulga��o da Lei de Terras (Lei 601) em 1850, dando acesso � propriedade de terras p�blicas para estrangeiros e abrindo espa�o para a forma��o de empresas particulares de coloniza��o, bem como os subs�dios (sobretudo na forma de passagens de 2� e 3� classes), aumentaram o fluxo imigrat�rio alem�o na segunda metade do s�culo XIX. N�o obstante sua import�ncia no contexto de coloniza��o, no cômputo das entradas a imigra��o alem� n�o atingiu a expressividade num�rica dos italianos, portugueses e espanh�is. Carneiro (1950) assinalou a entrada de 235.846 imigrantes alem�es no per�odo de 1819 a 1947; Willems (1946) preferiu fazer um c�lculo baseado em crit�rio lingu�stico, estimando que entre 1886 e 1936 o Brasil recebeu cerca de 280 mil "imigrantes de l�ngua alem�". Àparte as discrep�ncias estat�sticas, houve certa const�ncia do fluxo alem�o desde 1824 at� a d�cada de 1930, ocorrendo dois per�odos numericamente mais significativos (e que concentraram mais de um ter�o das entradas) - antes da 1� Guerra Mundial e nos primeiros anos da d�cada de 1920, no auge da crise da Rep�blica de Weimar. Essa concentra��o aponta para motiva��es de natureza econ�mica impulsionando a emigra��o para o Brasil desde 1824, mas n�o devem ser subestimadas as raz�es pol�ticas que motivaram as sa�das de revolucion�rios de 1848 ou de minorias teutas do leste europeu, por exemplo, bem como a efic�cia da propaganda e dos subs�dios prometidos pelos agentes do governo brasileiro e da companhia de coloniza��o. À parte os indicadores estat�sticos, que deixam a imigra��o alem� bem atr�s das principais correntes, deve-se assinalar sua import�ncia e continuidade no processo de povoamento e coloniza��o de uma parte do territ�rio nacional. Quase duas centenas de "col�nias alem�es" surgiram nos tr�s estados do sul na segunda metade do s�culo XIX, concentradas em algumas regi�es como os vales dos rios Sinos, Jacu�, Taquari e Ca�, e no Alto Uruguai (Rio Grande do sul); o vale do Itaja� e a regi�o noroeste de Santa Catarina (cujos centros mais importantes s�o Blumenau e Joinville); a regi�o de Ponta Grossa e munic�pios pr�ximos, no Paran�; descendentes e novos imigrantes prosseguiram nesse processo de ocupa��o, juntamente com outros imigrantes, nas primeiras d�cadas do s�culo XX - estabelecendo novas frentes pioneiras no planalto catarinense e paranaense. Al�m disso, col�nias com preponder�ncia de alem�es surgiram no Esp�rito Santo (d�cada de 1870) e, incipientemente, em alguns pontos de S�o Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Eles tiveram papel importante num projeto colonizador com motiva��es geopol�ticas, idealizado e, em parte, implementado pelo governo brasileiro, embora a imigra��o n�o estivesse restrita ao meio rural, e boa parte das col�nias surgissem da iniciativa de companhias particulares com apoio dos governos provinciais. Os alem�es tiveram primazia na forma��o de uma estrutura agr�ria baseada na pequena propriedade familiar, cujo tamanho, no auge do povoamento atrav�s de linhas coloniais demarcadas em terras devolutas, chegou � m�dia de 25 hectares. Juntamente com outros grupos de imigrantes, principalmente italianos e poloneses, formaram um campesinato cuja caracter�stica mais marcante foi produzida pela fixa��o (obrigat�ria) no lote colonial - sua unidade econ�mica b�sica. O desenvolvimento posterior � fase pioneira e a diferencia��o interna, bem como a migra��o para centros urbanos maiores, inclusive a cidade de S�o Paulo, al�m da emancipa��o de algumas col�nias ainda no per�odo imperial, deixaram vis�veis as diferen�as culturais produzidas pelo processo imigrat�rio, num momento em que aumentava o fluxo imigrat�rio no in�cio da Rep�blica e recrudesciam os discursos sobre assimila��o dos estrangeiros, no rastro das preocupa��es nacionalistas com a poss�vel forma��o de "minorias nacionais". A maior notoriedade da imigra��o alem�, portanto, tem a ver, por um lado, com a concentra��o espacial em �reas coloniais e urbanas (forma��o de bairros etnicamente configurados) e suas especificidades culturais - incluindo o uso cotidiano da l�ngua alem� que persistia ainda na d�cada de 1940 - e, por outro lado, com a formaliza��o de um discurso �tnico fundamentado na no��o de germanidade ou germanismo (Deutschtum) e veiculado nas institui��es comunit�rias (escolas, associa��es recreativas e culturais, igrejas) e na imprensa e literatura publicadas em l�ngua alem�. O surgimento de uma etnicidade teuto-brasileira foi concomitante com a emancipa��o das col�nias (transformadas em munic�pio) e com os interesses mais diretos de uma elite e de uma classe m�dia urbana e rural nos direitos de cidadania, a� compreendida a participa��o pol�tica. A formula��o da etnicidade teuto-brasileira tomou como refer�ncia alguns pressupostos de unidade �tnica tomados do discurso nacionalista alem�o e o processo hist�rico de coloniza��o. A realidade hist�rica da coloniza��o � apresentada no discurso �tnico como um processo pioneiro e civilizat�rio - a constru��o de uma p�tria no Brasil. Tal pressuposto estava inspirado nas diferen�as s�cio-culturais impl�citas na id�ia de col�nia enquanto unidade �tnicamente configurada por uma l�ngua materna, institui��es e habitus alem�es - comunidade �tnica em oposi��o aos princ�pios de brasilidade que exigiam a incorpora��o nos c�nones da forma��o nacional. A categoria de identifica��o - teuto-brasileiro - afirma uma condi��o de pertencimento � na��o alem� e a cidadania brasileira como coisas compat�veis. O nacionalismo brasileiro, por�m, considerou a id�ia de Deutschtum - que demarcou a etnicidade a partir da cren�a na origem (racial) comum, numa cultura compartilhada e no jus sanguinis - esp�ria e perigosa, amea�a � unidade brasileira. Para imigrantes e descendentes a no��o de Deutschtum parecia compat�vel com a cidadania porque pensavam o Brasil como um Estado etnicamente plural e n�o como Na��o. Essa pretens�o pluralista alimentou as especula��es sobre um poss�vel separatismo - o "perigo alem�o" evidenciado na dupla identidade que, para os brasileiros, atrasava o desej�vel processo de assimila��o ou abrasileiramento (Seyferth, 1982). A propaganda pangermanista no in�cio do s�culo XX, com sua inspira��o racista, e a marcante presen�a nazista denunciada no Estado Novo, ajudaram a produzir situa��es de conflito que marcaram a vida cotidiana dos alem�es e seus descendentes at� o fim da d�cada de 1940. Instituida em nome da unidade nacional, a campanha de nacionaliza��o do Estado Novo, iniciada em 1937 com a pretens�o de for�ar a assimila��o dos alien�genas (termo indicativo de aus�ncia de abrasileiramento), produziu a maior crise enfrentada por alem�es e descendentes: houve interven��o nas escolas e outras institui��es comunit�rias, o uso da l�ngua materna foi proibido em p�blico e os militares procuraram impor civismo atrav�s do elogio ao caldeamento �tnico/racial. Tal experi�ncia nacionalizadora teve efeitos definitivos, entre eles o desaparecimento da imprensa e das escolas �tnicas e de algumas institui��es culturais; mas n�o anulou alguns princ�pios da etnicidade teuto-brasileira, especialmente aqueles vinculados � origem comum, ao habitus e ao processo hist�rico de coloniza��o (sob a chancela do pioneirismo) que, simbolicamente, comp�em as marcas distintivas de uma identidade �tnica persistentemente reconstru�da. Giralda Seyferth é pesquisadora do departamento de Antropologia do Museu Nacional - UFRJ Referências: CARNEIRO, J.F. 1950. Imigra��o e coloniza��o no Brasil. Rio de Janeiro, Faculdade Nacional de Filosofia, Cadeira de Geografia do Brasil, Publica��o Avulsa, 2. FOUQUET, C. 1974. O imigrante alem�o e seus descendentes no Brasil: 1808-1824-1974. S�o Paulo, Instituto Hans Staden; S�o Leopoldo, Federa��o dos Centros Culturais 25 de Julho. SEYFERTH, G. 1982. Nacionalismo e Identidade �tnica. Florian�polis, Funda��o Catarinense de Cultura. WILLEMS, E. 1946. A acultura��o dos alem�es no Brasil. S�o Paulo, Cia. Editora Nacional. |
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Atualizado em 10/12/2000 |
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