Tote

(Redirecionado de Tot)

Tote[1], também grafado como Thoth, Tot, Toth ou Thot (em grego clássico: Θώθ; romaniz.: Thóth; ou Djeuti em egípcio: Dḥwtj), é o deus egípcio da lua, do conhecimento, da sabedoria, da escrita, da música e da magia. O seu principal centro de culto situava-se em Khmunu (renomeada posteriormente como Hermópolis Magna pelos gregos). A sua contraparte feminina, frequentemente descrita como sua filha ou consorte, era a deusa Sexate, e a sua esposa principal era Maat, a personificação da verdade e da ordem cósmica.[2][3]

Tote
G26t
Z4

dHwt
Z4
R8

G26
t Z4
Outros nomesThoth, Tot, Toth ou Thot
Nascimento
Parentesco, Hator e Seth
CônjugeMaat
Filho(a)(s)Sexate

Os antigos egípcios consideravam Tote como um ser único, autogerado e autoproduzido. Ele era o mestre tanto das leis físicas quanto das morais (isto é, da lei divina), utilizando de forma adequada o princípio de Ma'at. É creditado a ele os cálculos precisos para o estabelecimento dos céus, das estrelas, da Terra e de tudo o que há neles.[4]

Etimologia e origens

editar

O nome egípcio original de Tote era Djeuti (ou Dḥwty), que os egiptólogos traduzem frequentemente como "Aquele que é semelhante ao íbis". As suas origens mitológicas variam dependendo da tradição: em algumas versões, ele nasceu diretamente dos lábios de no início da criação; em outras, relativas aos conflitos entre Hórus e Seth, ele teria emergido da testa de Seth após este engolir acidentalmente o sêmen de Hórus. Apesar dessas variações, Tote sempre representou a inteligência divina e a voz da razão.

Epítetos e títulos

editar

Como uma das divindades mais antigas e onipresentes do Egito, Tote acumulou uma vasta gama de epítetos e títulos de poder ao longo dos milênios. Nos textos dos templos, ele é frequentemente invocado como:

  • Senhor da Palavra Divina: Refletindo o seu domínio sobre os hieróglifos e a magia incantatória.
  • O Touro das Estrelas: Um título que destaca a sua autoridade sobre as constelações, a astronomia e o movimento celestial.
  • Aquele que Equilibra a Balança: Em referência direta ao seu papel na psicostasia (o julgamento das almas).
  • O Coração de Rá: Demonstrando que Tote era considerado a manifestação do intelecto e do pensamento do deus criador solar.[5]

Iconografia

editar

Na arte egípcia, Tote era tipicamente retratado sob duas formas principais, correspondentes aos seus dois animais sagrados:

  • O Íbis: A sua representação mais comum é a de um homem com a cabeça de uma ave íbis. Nesta forma, ele é frequentemente visto segurando uma paleta de escriba e um cálamo, anotando os decretos dos deuses, ou empunhando o cetro Was (poder) e o Ankh (vida).
  • O Babuíno: Relacionado ao seu aspecto lunar e como deus do equilíbrio, Tote também era representado como um babuíno sentado (chamado de Aani), muitas vezes ostentando um disco lunar crescente sobre a cabeça.

Atributos e funções

editar

Os papéis de Tote na mitologia egípcia foram vastos e fundamentais para a manutenção do universo.

O escriba divino e o conhecimento

editar

Ele serviu como o escriba dos deuses, mantendo o registro de tudo o que acontecia. Os egípcios o consideravam o autor de todas as obras de ciência, religião, filosofia e magia. A ele foi creditada a invenção da escrita e dos hieróglifos egípcios, conhecidos como "as palavras dos deuses". Por isso, era o padroeiro supremo dos escribas.

Magia e medicina

editar

Sendo o guardião dos feitiços e do conhecimento oculto, Tote era um curandeiro formidável. No mito de Osíris, foi ele quem forneceu a Ísis as palavras mágicas necessárias para ressuscitar o seu marido. Também foi Tote quem restaurou o olho de Hórus (o Olho de Wadjet) após este ter sido arrancado em batalha por Seth, curando-o com a sua magia e cuspe.

Mensurador do tempo e astronomia

editar

Como deus da lua, o ciclo lunar estava associado à medição do tempo. Tote era considerado o criador do calendário egípcio. Num mito famoso, a deusa do céu, Nut, foi amaldiçoada por Rá a não ter filhos em nenhum dia do ano civil (que tinha 360 dias). Tote, num jogo de dados (ou senet) contra o deus da lua (Quespisiquis), ganhou uma fração da sua luz, criando assim cinco dias adicionais (os chamados dias epagômenos). Nesses cinco dias, Nut conseguiu dar à luz os deuses Osíris, Hórus o Velho, Seth, Ísis e Néftis.

O mediador das disputas divinas

editar

Tote era o juiz e o pacificador supremo do panteão egípcio. Nas contendas entre deuses, especialmente no conflito milenar entre Hórus e Seth, Tote atuava como o conselheiro que trazia a razão à força bruta. Ele era o único capaz de ditar sentenças que os deuses eram obrigados a respeitar, garantindo que a vontade de Rá fosse executada sem levar o cosmos à autodestruição. Sua habilidade de argumentação era tamanha que ele era considerado o mestre da retórica divina.[6]

O mito da Deusa Distante

editar

Um dos mitos mais famosos a demonstrar a inteligência de Tote envolve a "Deusa Distante" (frequentemente identificada como a "Filha de Rá", como Hator, Tefnut ou Sekhmet). Quando a deusa se enfureceu com Rá e com a humanidade, ela fugiu para os desertos da Núbia, transformando-se em uma leoa selvagem e sanguinária. Sem ela, o mundo sofria um desequilíbrio e Rá temia a sua força bélica. Foi Tote quem Rá escolheu como emissário. Assumindo a forma de um pequeno babuíno, Tote seguiu a deusa e, em vez de usar a força, empregou fábulas, elogios e astuta persuasão. Através do uso magistral da palavra, ele acalmou a fúria da deusa e a convenceu a retornar pacificamente ao Egito. Este mito ilustra o princípio central de Tote: a supremacia do intelecto e da retórica sobre a força bruta.[7]

O senhor dos "Livros de Tote"

editar

Para além da escrita comum, Tote era o guardião dos "Livros de Tote". Segundo a tradição mitológica, estes livros continham segredos tão terríveis e poderosos que quem os lesse poderia controlar a própria natureza, dominar os elementos e até forçar os deuses a obedecerem. Acreditava-se que o acesso a este conhecimento proibido trazia uma maldição a qualquer mortal que o buscasse, refletindo o aspecto mais austero e temível de Tote como o senhor da sabedoria oculta.[8]

Tote na literatura egípcia

editar

Além do seu papel teológico formal, Tote figurava proeminentemente na cultura popular e na literatura de entretenimento do Antigo Egito. No famoso conto do Período Ptolomaico sobre o príncipe Setne Khamwas (filho de Ramessés II), o protagonista invade uma tumba ancestral para roubar o lendário "Livro de Tote". O conto descreve como o livro continha magias que permitiam encantar o céu, a terra, o submundo e compreender a linguagem dos animais. No entanto, o roubo atrai a ira de Tote, e Setne sofre uma série de terríveis maldições e alucinações até que se arrepende e devolve o papiro ao seu lugar de descanso. Esta história demonstra que a magia de Tote era vista com grande temor e reverência pela população egípcia.[9]

O culto e as necrópoles sagradas

editar

O culto de Tote era amplamente difundido por todo o Egito, atingindo o seu ápice de popularidade durante a Época Baixa e o Período Ptolomaico. O povo comum não tinha permissão para entrar nos santuários internos dos templos, mas demonstrava a sua devoção através de oferendas votivas. Nas vastas necrópoles de Tuna el-Gebel (próxima a Hermópolis) e em Sacará, arqueólogos descobriram catacumbas subterrâneas que se estendem por quilômetros, contendo milhões de múmias de íbis e babuínos. Estes animais eram criados nos arredores dos templos, mumificados após a morte natural (ou sacrificados ritualisticamente), e depositados em jarros de cerâmica como oferendas físicas ao deus. Acredita-se que os devotos pagavam os sacerdotes para realizar este sepultamento na esperança de que Tote ouvisse as suas súplicas por cura, justiça ou sabedoria.[10]

O julgamento dos mortos

editar

No submundo (Duat), o papel de Tote era crucial. Durante a cerimônia descrita no Livro dos Mortos, conhecida como a "Pesagem do Coração", Tote (frequentemente em sua forma de babuíno, Aani, ou como o escriba com cabeça de íbis) permanecia junto à balança de Osíris.[11]

Ele registrava com precisão matemática o momento em que a balança pesava o coração do falecido contra a pena da deusa Maat. Apenas se a balança estivesse perfeitamente equilibrada o falecido poderia prosseguir para os Campos de Aaru (o paraíso egípcio). Se o veredito fosse positivo, Tote declarava o falecido como "justo de voz".

Sincretismo e legado

editar

Com a chegada dos gregos ao Egito após as conquistas de Alexandre, o Grande, houve uma intensa fusão cultural. Os gregos identificaram Tote com o seu próprio deus mensageiro, Hermes. Dessa fusão nasceu a figura de Hermes Trismegisto (Hermes, o Três Vezes Grande).

Os gregos ptolomaicos declararam Tote/Hermes como o inventor da astronomia, astrologia, ciência dos números, matemática, geometria, topografia, medicina, botânica, teologia, governo civilizado, alfabeto, leitura, escrita e oratória. Eles afirmavam que ele era o verdadeiro autor de todas as obras de todos os ramos do conhecimento, tanto humano quanto divino.[12] Este sincretismo deu origem a uma tradição filosófica e esotérica duradoura conhecida como Hermetismo.

Referências

  1. Wilkinson, Richard H. The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt. Thames & Hudson, 2003, p. 215.
  2. Thutmose III: A New Biography, Eric H Cline, David O'Connor University of Michigan Press (January 5, 2006), p. 127
  3. The Gods of the Egyptian, E. A. Wallis Budge, 1904, v. 1, p. 400
  4. Allen, James P. Genesis in Egypt: The Philosophy of Ancient Egyptian Creation Accounts. Yale Egyptological Seminar, 1988, p. 34.
  5. Boylan, Patrick. Thoth, the Hermes of Egypt. Oxford University Press, 1922, p. 88.
  6. Hornung, Erik. The Ancient Egyptian Books of the Afterlife. Cornell University Press, 1999, p. 25.
  7. Pinch, Geraldine. Egyptian Myth: A Very Short Introduction. Oxford University Press, 2004, p. 71-72.
  8. Pinch, Geraldine. Egyptian Myth: A Very Short Introduction. Oxford University Press, 2004, p. 112.
  9. Lichtheim, Miriam. Ancient Egyptian Literature: Volume III: The Late Period. University of California Press, 2006, p. 125.
  10. Ikram, Salima. Divine Creatures: Animal Mummies in Ancient Egypt. American University in Cairo Press, 2005, p. 112.
  11. Taylor, John H. Death and the Afterlife in Ancient Egypt. University of Chicago Press, 2001, p. 36.
  12. Fowden, Garth. The Egyptian Hermes: A Historical Approach to the Late Pagan Mind. Princeton University Press, 1986, p. 22.