Soneto 74
| Soneto 74 |
|---|
But be contented when that fell arrest |
| –William Shakespeare |
Soneto 74 é um dos 154 sonetos de William Shakespeare, compondo os sonetos da série ao Belo Rapaz (do Soneto 1 ao Soneto 126).
Estrutura
editar- Forma: Soneto inglês
- Rimas: ABAB CDCD EFEF GG
- Métrica: Versos decassílabos
- Ritmo: Pentâmetro iâmbico
Sinopse
editarNeste soneto, que dá continuidade ao verso 73,[4] o poeta consola o amado dizendo-lhe que apenas o corpo do poeta morrerá; o espírito do poeta continuará a viver na poesia, que é do amado.[1][2]
Este é o último dos quatro sonetos que tratam da velhice e da morte. Finalmente, a possibilidade de sobrevivência assume uma dimensão espiritual. O fato de o Tempo poder levar tudo é atenuado pela persistência da "melhor parte de mim", que triunfa sobre a morte do corpo. O poema se conecta a muitos outros da série, especialmente aqueles que tratam da união dos amantes, pois aqui o espírito do poeta é também o da amada, e seu espírito se manifesta em seus versos, que serão um monumento e uma homenagem para toda a eternidade. Assim, o milagre se realiza: a substância inerte de sua carne, não mais digna do que a covarde conquista da faca de um miserável, se transforma na magia do verso eterno que vence a morte e permite que o amor floresça onde parecia destruído por ela.[5]
Traduções
editarTradução de Thereza Christina Rocque da Motta
editarNum quatorzain monostrófico, sem obediência a métrica, ritmo ou rima, faz uma tradução próxima à literal.
Alegra-te: quando a dura prisão
Sem dó para longe me arrastar,
Minha vida tem neste verso um interesse,
Que, em memória, ainda em ti continuará.
Quando o revires, verás de novo
Tudo o que consagrei a ti.
A terra terá apenas a terra, que a ela pertence;
Meu espírito é teu – a melhor parte de mim:
Então, quando dissipares o que restar de tua vida,
Presa dos vermes, meu corpo sucumbido;
Na covarde conquista de um punhal maldito,
Haverá muito pouco de ti para ser lembrado.
Seu valor está no que ele contém,
E isto é o que vale e, este sim, ficará contigo.[6]
Tradução de Paulo Camelo
editarApresenta sua tradução num soneto inglês, com rimas ABAB CDCD EFEF GG, em decassílabos por pentâmetro iâmbico, acrescentando-lhe um ritmo holístico.
Aceita, então, essa prisão cruel
que não tem forças para me manter,
pois minha vida não terá papel
que guarde tudo que lhe pertencer.
Quando cuidares disso, saberás
que a minha vida te foi consagrada;
A terra é terra e assim te manterás
mantendo essa minha alma a ti voltada.
Então, restos da vida tu perdeste
aos vermes misturada, e o que foi meu
a faca fez estrago. Assim rompeste
essa lembrança que se esvaneceu.
O valor disso está no que contém
a vida, a alma e tudo mais além.[7]
Tradução de Milton Lins
editarCoonstruída como um soneto inglês em decassílabos por pentâmetro iâmbico em quase todos os versos, esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG.
Fica contente. Quando chega a morte,
Sem ter fiança, abate-me de fora.
A minha vida então aceita o corte,
Que a memória contigo ainda mora[nota 1]
Quando bem o reviste, viste as cenas[nota 1]
Cabia a ti a parte principal.
A terra pode ter a terra, apenas;
Meu espírito é teu, meu ideal.[nota 1]
Perdeste, assim, só a ralé da vida,
A presa do meu corpo aos vermes dada;
Covarde aquisição da foice erguida,
Base também de ti, a ser lembrada.
O valor disto é tudo que contém,
E tudo é isto, e nisto se retém.[8]
Tradução de José Arantes Júnior
editarNum soneto inglês com esquema de rimas ABAB CDCD EFEF GG, construindo os versos com 36 caracteres cada um, para aparentar uma figura geométrica (retângulo), quando utilizada fonte monoespaçada, acrescentando-lhe um título.
A sobrevivência na morte
[9]
Fiques bem quando uma rude apreensão
Me levar embora sem nenhuma garantia,
Minha vida traz as linhas com emoção
Para que tua memória veja a sintonia,
Quando revires isto, terás a revisão
Da boa parte que a ti foi consagrada,
A terra só terá terra, é seu quinhão,
A alma, que é o melhor, te foi doada,
Perderás só resíduos da vida em ação,
Presa dos vermes, o corpo jaz lesado,
Covarde conquista de um punhal vilão
Muito abaixo de ti para ser lembrado,
Há louvor no que no imo se puder ser
E isto contigo sempre irá sobreviver.
Notas
editarReferências
editar- 1 2 Folger Shakespeare Library. «Sonnet 74». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 25 de março de 2026
- 1 2 «Sonnet 74». Poem Analysis (em inglês). Consultado em 25 de março de 2026
- ↑ «But be contented: when that fell arrest (Sonnet 74)» (em inglês). Consultado em 25 de março de 2026
- ↑ «Dissonâncias, magia e simpatia cósmicas [Shakespeare]». Artepensamento. Consultado em 25 de março de 2026
- ↑ «Sonnet LXXIV». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 25 de março de 2026
- ↑ «Soneto 74». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 25 de março de 2026
- ↑ «Soneto 74 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 25 de março de 2026
- ↑ Shakespeare, William. Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: Ed. do Tradutor (impressão FacForm), 2005, ISBN 978-85-98896-04-5
- ↑ Shakespeare, William. Sonetos completos de William Shakespeare - tradução, introdução e notas José Arantes Júnior. São Paulo, Ed. do autor, 2007.