O Saquifa (em árabe: سَقِيفَة; romaniz.: Saqīfah) dos saidaítas refere-se ao local onde ocorreu, nos primeiros momentos da história do islão, uma reunião em que parte dos companheiros do profeta islâmico Maomé prestou juramento de fidelidade a Abu Becre como primeiro califa e sucessor de Maomé, pouco depois de sua morte, em 11 A.H. (632). A reunião do Saquifa é considerada um dos acontecimentos mais controversos do islão primitivo, em razão da ausência de numerosos companheiros de Maomé, entre eles membros de sua família imediata, notadamente Ali, seu primo e genro. Os conflitos surgidos em torno da sucessão de Maomé são geralmente apontados como a principal origem da divisão histórica entre sunitas e xiitas. Os que reconheceram o califado de Abu Becre passaram posteriormente a ser identificados como sunitas, enquanto os partidários do direito de Ali ao califado ficaram conhecidos como xiitas.

Historiografia

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A palavra árabe saqīfa designa um recinto comunitário coberto destinado a reuniões e conversas. Nas fontes históricas, porém, o termo tornou-se praticamente sinônimo da assembleia realizada logo após a morte de Maomé para deliberar sobre sua sucessão.[1]

Fontes

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Os primeiros relatos sobre a reunião do Saquifa só começaram a ser registrados por escrito na primeira metade do século II da Hégira ou posteriormente. Nessa época, a comunidade muçulmana já se encontrava consolidada em correntes sunitas e xiitas. Em razão disso, as obras dos autores sunitas Ibne Sade (m. 230/845), Albaladuri (m. 279/892) e Atabari (m. 310/923) refletem, em diferentes graus, a perspectiva sunita, enquanto autores associados ao xiismo, como Ibne Isaque (m. 151/768), Iacubi (m. 284/897–898) e Almaçudi (m. 345/956), preservaram tradições mais favoráveis a essa corrente.[2] Por essa razão, Husain Mohammad Jafri defende que todos os relatos disponíveis devem ser examinados em conjunto para que se possa reconstruir o episódio com maior segurança histórica.[3] Como exemplo, Jafri observa que Ibne Sade apresenta, em seu Kitāb al-Ṭabaqāt al-kabīr, um relato fortemente apologético da reunião do Saquifa, no qual a participação de Ali é omitida.[4][5] Segundo o autor, Ibne Sade foi um dos precursores da técnica historiográfica "piedosa" sunita, que preservava apenas os aspectos considerados exemplares dos companheiros e suprimia relatos potencialmente controversos.[6] Em contrapartida, Jafri considera que as obras tardias dos autores xiitas Xeique Tabarci (m. 548/1153) e Maomé Baquir Majlici (m. 1699) possuem caráter marcadamente polêmico e reduzido valor histórico.[7]

O relato mais antigo é o de Ibne Isaque, preservado na recensão realizada pelo autor sunita Ibne Hixame (m. 218/833) de sua Sīrat Rasūl Allāh. Jafri observa que, de maneira incomum, Ibne Hixame absteve-se de modificar a narrativa de Ibne Isaque sobre a reunião do Saquifa, circunstância que interpreta como a preservação de um relato elaborado por um autor de inclinação xiita e aceito por um editor sunita.[7] As reconstruções históricas de Jafri e de Wilferd Madelung baseiam-se, em grande medida, nesse relato.[7][8] Em sua obra Ansāb al-ašrāf,[4] Albaladuri segue parcialmente o método apologético de Ibne Sade, mas preserva também parte do material controverso referente à reunião do Saquifa, incluindo tradições favoráveis a Ali.[9] Por outro lado, o conteúdo controverso da obra de Aliacubi foi frequentemente rejeitado por autores sunitas posteriores como inautêntico, ao passo que Jafri o considera uma valiosa coletânea de documentos preservados apesar da tendência predominante entre muitos historiadores sunitas de omitir ou rejeitar tradições divergentes.[10] Madelung igualmente sustenta que a afinidade sunita ou xiita de um relato, por si só, não constitui prova de sua falsidade.[11] Segundo Jafri, o relato de Atabari sobre a reunião do Saquifa é, em geral, equilibrado e imparcial,[7] enquanto Mahmoud M. Ayoub o considera a narrativa mais detalhada do episódio.[12]

O principal transmissor das tradições relativas à reunião do Saquifa é Ibne Abas (m. 68/687–688), primo de Maomé e reconhecida autoridade religiosa em Medina. Segundo Jafri, ele presenciou os acontecimentos e recebeu ainda o testemunho direto de seu pai, Alabás ibne Abede Almotalibe, que então desempenhava papel político ativo.[13] Madelung considera autêntica a narrativa de Ibne Abas, observando que ela reflete características recorrentes de sua perspectiva histórica. A maior parte desse relato consiste em um sermão pronunciado por Omar em 23/644.[8] Embora ausente da maioria das fontes sunitas, Madelung e Jafri entendem que esse discurso foi proferido para desencorajar aqueles que eventualmente pretendiam apoiar a nomeação de Ali como califa após a morte de Omar.[14][15]

Reunião

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Juramento de fidelidade a Abu Becre no Saquifa, com Omar à direita; miniatura persa produzida por volta de 1595

Durante a vida de Maomé, os muçulmanos de Medina dividiam-se em dois grupos: os muajiritas, que haviam se convertido ao islão em Meca e emigrado para Medina com Maomé, e os ançares, originários de Medina e responsáveis por convidar Maomé a governar a cidade.[16] Logo após a morte de Maomé, em 11/632, os ançares reuniram-se no Saquifa (literalmente, "pátio coberto") dos saidaítas, enquanto os parentes próximos do profeta preparavam seu sepultamento.[17][18] Segundo a interpretação tradicional, os ançares pretendiam escolher entre si um novo dirigente para a comunidade muçulmana, excluindo deliberadamente os muajiritas. Essa também foi a versão apresentada por Omar em seu sermão posterior.[19] O principal candidato teria sido Sade ibne Ubada, companheiro de Maomé, chefe dos saidaítas e uma das principais lideranças dos cazerajitas, a tribo majoritária entre os ançares. Sade encontrava-se doente naquele dia.[20][21] Para Madelung, contudo, a ausência dos muajiritas indica que os ançares se reuniram para restabelecer seu controle sobre Medina, pois supunham que a maioria dos emigrantes regressaria a Meca após a morte de Maomé.[19] Jafri propõe, alternativamente, que os ançares tenham agido preventivamente por temerem a dominação dos mecanos e talvez já conhecerem suas pretensões à liderança da comunidade.[22]

Entre as três tradições disponíveis, Jafri privilegia aquela presente em quase todas as fontes que examinou. Segundo esse relato, a notícia da reunião chegou a Abu Becre, Omar e Abu Ubaida ibne Aljarrá quando os três provavelmente se encontravam na casa deste último, talvez discutindo a crise sucessória.[23] Thomas Walker Arnold e Jafri consideram provável que Abu Becre e Omar tivessem planejado anteriormente uma aliança para enfrentar a sucessão de Maomé,[24][25] enquanto Madelung atribui esse planejamento apenas a Abu Becre.[26] No relato de Ibne Isaque, uma pessoa teria informado Abu Becre e Omar sobre a reunião nos seguintes termos: "Se desejais assumir o comando do povo, fazei-o antes que a ação deles [os ançares] se torne séria."[18] Os dois dirigiram-se então rapidamente ao Saquifa, acompanhados de Abu Ubaida, possivelmente para impedir qualquer desdobramento inesperado.[23] Segundo Omar, algumas pessoas tentaram dissuadi-los, mas os três prosseguiram mesmo assim.[21][23] Omar afirma que "os muajiritas" se juntaram a Abu Becre e que, em seguida, ele próprio sugeriu que fossem ao encontro dos ançares reunidos no Saquifa. Madelung rejeita essa versão e considera que Abu Becre, Omar e Abu Ubaida eram os únicos representantes dos muajiritas presentes, talvez acompanhados por alguns parentes e clientes. Para o autor, a quase completa ausência dos emigrantes também explicaria a inexistência de outros relatos independentes sobre o episódio, pois os ançares teriam relutado posteriormente em narrar sua derrota política.[27]

Ao chegar ao Saquifa, Omar afirma ter percebido que os ançares pretendiam "separar-nos de nossa raiz", isto é, dos coraixitas, e usurpar-lhes o governo.[21] Abu Becre tomou então a palavra e advertiu que os árabes não reconheceriam a autoridade de alguém que não pertencesse à tribo de Maomé, os coraixitas. Segundo a versão preservada por Ibne Isaque, argumentou também que os muajiritas eram os mais nobres entre os árabes em linhagem e posição.[28] Albaladuri acrescenta que Abu Becre destacou a precedência dos emigrantes na conversão ao islão e sua maior proximidade genealógica com Maomé.[29] O parentesco dos coraixitas com o profeta também aparece nos relatos de Aliacubi e Atabari e na interpretação de Moojan Momen.[30][31][32] Madelung, contudo, considera improvável que Abu Becre tenha invocado o parentesco dos coraixitas com Maomé, pois esse argumento levantaria inevitavelmente a questão dos direitos dos haxemitas, clã do profeta e grupo que reunia seus parentes mais próximos.[33] Retomando a narrativa de Ibne Isaque, Abu Becre teria então convidado os ançares a escolher Omar ou Abu Ubaida como sucessor de Maomé. Omar relata que a proposta o desagradou, pois considerava Abu Becre mais digno do governo do que ele próprio.[30] Madelung interpreta a oferta como uma manobra de Abu Becre para apresentar-se aos ançares como alternativa aceitável a Omar e Abu Ubaida. Segundo o autor, Abu Ubaida não possuía projeção política suficiente, enquanto Omar aparentemente havia prejudicado sua posição pouco antes da reunião ao negar publicamente a morte de Maomé.[34]

No relato de Ibne Isaque, Hababe ibne Almondir, veterano da Batalha de Badre, respondeu a Abu Becre propondo que coraixitas e ançares escolhessem separadamente seus próprios governantes.[19][35] Seguiu-se então uma discussão acalorada. Segundo Omar, ele pediu a Abu Becre que estendesse a mão e lhe prestou juramento de fidelidade, sendo seguido por outros presentes. Acrescentou ainda: "Depois nos lançamos sobre Sade, até que um deles gritou: 'Matastes Sade ibne Ubada.' Eu respondi: 'Que Deus mate Sade.'"[19] Para Madelung, a eclosão da violência indica que uma parcela considerável dos ançares recusou-se inicialmente a seguir Omar. Caso contrário, argumenta, não teria sido necessário agredir seu chefe, Sade ibne Ubada.[36] Sade continuou recusando-se a reconhecer a nova liderança até morrer durante o califado de Omar. Tradições posteriores atribuíram sua morte a um gênio,[37][5] embora Madelung e Ayoub considerem possível que ele tenha sido assassinado por instigação do segundo califa.[38][12]

Ali, primo e genro de Maomé, preparava o corpo do profeta para o sepultamento ao lado de outros parentes próximos e provavelmente desconhecia a reunião que ocorria no Saquifa.[39][32] Após o juramento de Omar a Abu Becre, o relato do cufano Ibraim Anaqui (m. 96/714–715) acrescenta: "Mas os ançares, ou alguns deles, disseram: 'Não prestaremos juramento de fidelidade a ninguém senão Ali.'" Leone Caetani rejeita essa tradição em razão de sua coloração xiita, enquanto Madelung a aceita, observando que Anaqui não é conhecido por simpatias xiitas e que o restante de sua narrativa possui caráter claramente sunita.[38] De modo semelhante, Aliacubi relata que o ançar Almondir ibne Arcame interrompeu os debates e propôs Ali como sucessor.[40][41] Jafri,[40] Arzina Lalani[42] e Momen[32] também afirmam que alguns dos presentes defenderam a candidatura de Ali no Saquifa. Madelung não considera certo que a sucessão de Ali tenha sido discutida no Saquifa, mas julga provável que isso tenha ocorrido.[38] Segundo ele, os ançares teriam naturalmente se inclinado a Ali em razão dos laços familiares que os uniam ao profeta.[43][nota 1] Em seu sermão posterior, Omar explicou que os presentes haviam pressionado os ançares a prestar imediatamente o juramento de fidelidade a Abu Becre porque, segundo ele, poderiam ter escolhido um dos seus como sucessor de Maomé.[36] Madelung sugere que Omar também temia que os ançares levantassem entre si a candidatura de Ali.[29] John McHugo admite igualmente essa possibilidade.[44]

Madelung considera que uma xura, ou conselho consultivo amplo no qual Ali figurasse entre os candidatos, provavelmente teria resultado em sua eleição. Segundo o autor, os ançares o apoiariam em razão de seus vínculos familiares com Maomé.[45][46] Entre os muajiritas, Ali provavelmente receberia o apoio do poderoso clã dos abedexemecitas, ligado estreitamente aos haxemitas apesar das disputas entre ambos.[45] O chefe desse clã, Abu Sufiane ibne Harbe, de fato ofereceu seu apoio a Ali após a escolha de Abu Becre,[47][48] mas Ali recusou a oferta, afirmando estar preocupado com a unidade da comunidade islâmica nascente.[47] Madelung conjectura que o apoio conjunto dos ançares e dos abedexemecitas teria assegurado o califado a Ali. Acrescenta que, numa xura geral, a lógica direta da sucessão familiar provavelmente teria prevalecido em favor dele.[49] Outros autores também consideram provável que Ali fosse eleito caso tivesse sido convocada uma assembleia formal.[44] No que dizia respeito aos méritos pessoais, os mesmos argumentos utilizados para favorecer Abu Becre em detrimento dos ançares — parentesco com Maomé, serviços prestados ao islão, linhagem e precedência — provavelmente favoreceriam Ali em relação a Abu Becre.[25] Autores xiitas frequentemente recorrem a esses elementos para defender o direito de Ali à sucessão.[20] Segundo Jafri, os argumentos sunitas que justificam o califado de Abu Becre com base no fato de ele ter dirigido as orações nos últimos dias de Maomé refletem desenvolvimentos teológicos posteriores. O autor também considera confusas e contraditórias as tradições relacionadas a esse episódio.[25] Na mesma linha, Lecomte afirma que Maomé respeitava Abu Becre, mas julga inconclusivo o relato da oração, pois a condução do rito não estava formalmente vinculada à liderança política da comunidade.[5] Shaban atribui ainda menos importância ao episódio, observando que Maomé havia delegado anteriormente essa função a diversas outras pessoas.[50]

A investidura de Ali em Gadir Cume, numa cópia do século XIV da Cronologia das Nações Antigas, de Albiruni

Um argumento recorrente entre estudiosos sunitas e ocidentais sustenta que Ali, então com cerca de trinta anos,[51] seria jovem demais para constituir um candidato sério ao califado.[52][53] Essa é a posição de Laura Veccia Vaglieri, Henri Lammens e Shaban,[48][54] que considera que Ali ainda não havia sido suficientemente testado para assumir semelhante responsabilidade.[50] Em contrapartida, Reza Aslan argumenta que, apesar de jovem, Ali havia recebido regularmente de Maomé responsabilidades importantes.[51] Madelung propõe, alternativamente, que sua idade só teria constituído um obstáculo caso houvesse consenso de que a sucessão de Maomé deveria ser hereditária.[52] As famílias dos profetas anteriores ocupam posição proeminente no Alcorão.[55] Segundo Madelung e Jafri, os parentes desses profetas são apresentados como escolhidos por Deus para sucedê-los como herdeiros espirituais e materiais.[56][57] A família de Maomé, os Ahl al-Bayt, desfruta igualmente de posição destacada no texto corânico.[58][59][60] Partindo da premissa de que o Alcorão reflete as concepções de Maomé, Madelung argumenta que o profeta dificilmente teria compreendido sua própria sucessão de maneira diferente daquela atribuída aos profetas anteriores ou considerado Abu Becre seu sucessor natural.[61] Jafri desenvolve uma argumentação semelhante.[62] Essa interpretação corresponde também à perspectiva xiita.[63]

Perspectiva de Ali

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Veccia Vaglieri considera incerto que Ali realmente esperasse suceder Maomé, pois, segundo as fontes sunitas, não teria tomado medidas para assumir o governo, apesar dos conselhos de Abas e Abu Sufiane.[48] Ayoub, por sua vez, caracteriza como apologética a descrição moderada da oposição de Ali encontrada nessas fontes.[64] Ele e outros autores sustentam que Ali se considerava a pessoa mais qualificada para dirigir a comunidade muçulmana depois de Maomé, em razão de seus méritos e de seu parentesco com o profeta.[65][66][67] Segundo esses autores, Ali acabou por não insistir em sua reivindicação ao califado em nome da unidade da comunidade islâmica nascente, então atravessada por uma crise, quando se tornou evidente que não dispunha de apoio amplo entre os muçulmanos.[68][69][70] Madelung sugere que, caso a comunidade tivesse apoiado Ali, este teria considerado o califado não apenas um direito, mas também um dever.[68] Em discursos e cartas atribuídos a Ali, afirma-se repetidamente que a direção da comunidade muçulmana constituía uma prerrogativa da família de Maomé.[71]

Mavani, Madelung e Reza Shah-Kazemi acrescentam que Ali se considerava o sucessor designado de Maomé em virtude de uma determinação divina anunciada em Gadir Cume.[72][73][74] Ayoub discorda dessa interpretação,[46] embora reconheça que Ali e outros muçulmanos o consideravam o mais qualificado para liderar a comunidade.[75] Em apoio à sua interpretação, Madelung cita uma declaração preservada em fonte sunita e atribuída a Ali quando este prestou juramento de fidelidade a Abu Becre após uma longa demora.[68] Observa também que Ali se referiu publicamente a Gadir Cume depois de ascender ao califado, em 656.[73] Mavani recorre de maneira semelhante a relatos sunitas e xiitas,[76] entre eles a narrativa do conselho eleitoral de 644, no qual Ali se recusou a comprometer-se a seguir os precedentes dos dois primeiros califas.[77][78] Outro relato de Atabari indica que Ali voltou a excluir publicamente as práticas de Abu Becre e Omar da Suna de Maomé quando seus apoiadores lhe prestaram juramento de fidelidade em Cufa.[79][80]

Madelung considera que as concepções de Ali sobre a sucessão correspondem, em grande medida, às crenças xiitas atuais.[81] Lalani e Farhad Daftary apresentam avaliações semelhantes,[82][71] enquanto Veccia Vaglieri considera que as crenças xiitas posteriores foram elaboradas retrospectivamente, argumentando que Ali "não demonstrou inclinação ao legitimismo".[48] Outros autores, em contrapartida, descrevem uma oposição pública de Ali à escolha de Abu Becre no Saquifa.[27][83] Embora provavelmente não tenha abandonado sua reivindicação ao califado, Ali parece ter aceitado os três primeiros califas como governantes e administradores da comunidade.[84] Madelung destaca tradições sunitas nas quais Ali elogia Abu Becre e Omar,[81] enquanto outros estudiosos observam uma tendência da historiografia sunita a minimizar ou neutralizar os conflitos surgidos entre os companheiros depois da morte de Maomé,[85][86][87] particularmente aqueles relacionados ao Saquifa.[88][89][90]

Em Waqʿat Ṣiffīn e em outras fontes xiitas antigas, Ali contrapõe a corrupção do terceiro califa, Otomão, à administração política de Abu Becre e Omar, embora rejeite a legitimidade religiosa de ambos.[91] Um exemplo relacionado encontra-se no relato das negociações anteriores à Batalha de Sifim, travadas em 657, preservado por Nácer ibne Muzaime (m. 827–828). Nele, Ali teria afirmado que Abu Becre e Omar governaram com justiça, apesar de terem assumido indevidamente o califado.[92] Mavani e Maria Massi Dakake sugerem que Ali considerava a sucessão de Abu Becre um desvio que se transformou numa ruptura plena com a rebelião de Moáuia durante seu próprio califado.[93][94] Essa é também uma interpretação xiita, representada pelo jurista Ruhollah Khomeini.[95]

Política tribal

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Uma questão suscitada pelo episódio é como um pequeno grupo de muajiritas conseguiu impor sua vontade aos ançares no Saquifa. Ibne Isaque e Caetani atribuem esse desfecho a um conluio anterior entre os muajiritas e os aucitas, tribo rival dos cazerajitas entre os ançares. Madelung considera essa hipótese improvável, mas sugere que Uçaíde ibne Hudair, um dos chefes dos aucitas, apoiou Abu Becre no Saquifa e levou consigo a maioria de sua tribo,[36] como parece indicar também um relato relacionado preservado por Atabari.[25] Jafri propõe igualmente que a antiga hostilidade entre os aucitas, numericamente minoritários, e os cazerajitas, majoritários, tornou preferível aos primeiros submeterem-se ao governo dos coraixitas.[96] Momen apresenta interpretação semelhante,[20] enquanto Ayoub considera a rivalidade entre os cazerajitas e os aucitas o fator decisivo para a escolha de Abu Becre.[97] Segundo um relato de Aljaiz, autor sunita falecido em 869, Abu Becre recordou essa rivalidade aos ançares durante a reunião, reacendendo, na avaliação de Ayoub, o conflito que remontava ao período pré-islâmico.[98] A posição dos cazerajitas foi enfraquecida ainda mais por rivalidades internas, particularmente aquela entre seu chefe, Sade ibne Ubada, e seu primo Baxir ibne Sade. Este último esteve entre os primeiros membros do grupo a romper com os demais e apoiar Abu Becre.[99][25] Jafri considera que, quando o acordo em torno de Abu Becre estava praticamente concluído, os cazerajitas julgaram imprudente permanecer à margem e correr o risco de perder o favor do novo governante.[25] Jafri sugere que as rivalidades entre os clãs mais poderosos dos muajiritas facilitaram a aceitação do governo de Abu Becre, que pertencia ao pequeno clã dos taimitas.[35] Madelung e Caetani consideram que um fator decisivo para a vitória de Abu Becre foi a chegada oportuna dos aslamitas a Medina em número tão elevado que seus integrantes ocuparam as ruas da cidade. Conhecidos por sua hostilidade aos ançares, os aslamitas apoiaram prontamente a pretensão de Abu Becre ao governo. Omar teria afirmado com frequência: "Foi somente quando vi os aslamitas que tive certeza de nossa vitória." Não se sabe se sua chegada ocorreu por acaso ou se haviam sido previamente informados das pretensões dos ançares.[100]

O clã de Maomé, os haxemitas, e particularmente seu influente tio Abas apoiavam a sucessão de Ali.[5][101] Aslan sugere que a exclusão de Ali da reunião do Saquifa foi deliberada e refletia o receio dos coraixitas de que a concentração da profecia e do califado entre os haxemitas tornasse o clã excessivamente poderoso.[102] Momen e Madelung citam uma conversa nesse sentido entre o haxemita Ibne Abas e Omar.[20][45] Momen apresenta uma interpretação semelhante à de Aslan,[103] enquanto Madelung reconhece a existência de uma "inveja dos coraixitas" em relação aos haxemitas,[104] embora considere que a lógica direta da sucessão dinástica provavelmente teria prevalecido em favor de Ali caso uma xura ampla tivesse sido realizada.[49] Para Keaney, a elite de Meca temia que o califado de Ali mantivesse a futura direção da comunidade fora de seu alcance e concentrada entre os haxemitas.[105] Lammens sustenta que os árabes eram avessos à liderança hereditária, enquanto Madelung restringe essa atitude aos beduínos. Entre os coraixitas, argumenta, a sucessão hereditária não era incomum, refletindo a crença de que as qualidades nobres eram transmitidas pela linhagem. Aslan apresenta avaliação semelhante.[51] Asma Afsaruddin e Moshe Sharon sustentam que o parentesco não constituía um fator relevante no islão primitivo, posição contestada por Mohammad Ali Amir-Moezzi e Mavani.[106][107] Mavani afirma, em particular, que os valores tribais permaneciam profundamente arraigados na sociedade árabe daquele período, na qual o parentesco e a linhagem nobre constituíam os principais elementos de identidade e fontes de autoridade.[106] Keaney considera que, na sociedade árabe tradicional, a liderança era hereditária e permanecia, em sentido amplo, no interior de determinadas famílias.[105] Bernard Lewis (m. 2018) afirma que a tradição árabe consistia em escolher o xeique entre os integrantes de uma única família. Sustenta, contudo, que o fato de Ali ser primo e genro de Maomé teria tido pouca importância nesse contexto.[108]

Ibne Isaque e Ibne Hixame relatam que Omar declarou em seu célebre sermão: "O juramento de fidelidade a Abu Becre foi uma falta", isto é, um acordo precipitado e irrefletido,[109] "mas Deus afastou o mal que dele poderia resultar."[25] Albaladuri, autor sunita, apresenta uma versão alternativa em seu Ansab, segundo a qual Omar teria afirmado: "Por Deus, o juramento de fidelidade a Abu Becre não foi uma falta", acrescentando que Maomé já havia designado Abu Becre como seu sucessor. Em outra tradição preservada por Albaladuri, Omar classifica como mentira a afirmação de que o episódio do Saquifa teria sido uma falta. Madelung considera ambas as versões de Albaladuri altamente improváveis.[21] Madelung suspeita que Omar tenha caracterizado o episódio do Saquifa como uma falta porque a maioria dos muajiritas, particularmente os parentes de Maomé, foi excluída das deliberações, embora sua participação fosse essencial para conferir legitimidade ao resultado.[36] Possivelmente em razão da questionável autoridade jurídica do procedimento, Omar também advertiu os muçulmanos em seu sermão a nunca repetirem o exemplo do Saquifa.[110][111] Hassan Abbas e Momen manifestam preocupações semelhantes.[112][20] Walker acrescenta que os parentes de Maomé ficaram descontentes com a escolha apressada de Abu Becre, que lhes negou participação na decisão.[17] Jafri reconhece a proeminência de Abu Becre, mas observa que sua escolha resultou da decisão de um grupo de companheiros, imposta apressadamente aos demais, e que seu êxito se deveu às delicadas rivalidades entre os grupos de Medina.[25] Alguns autores contemporâneos caracterizaram ainda o episódio como um "acordo de bastidores" ou um "golpe", fortemente condicionado pela política tribal pré-islâmica.[17][113][114][103][115][116][117] Madelung sugere que o mal da falta, que Omar acreditava ter sido afastado por Deus, acabaria por se manifestar posteriormente na Primeira Fitna.[118]

Consolidação

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Em seu sermão, Omar afirmou que "os pescoços de todos os muçulmanos se estenderam em obediência a Abu Becre", embora Madelung considere mais provável que, inicialmente, a autoridade do novo califa fosse bastante precária.[119] Após a reunião do Saquifa, Abu Becre teria se dirigido à Mesquita do Profeta,[39] onde pronunciou seu discurso inaugural.[5] Abbas e Lesley Hazleton afirmam que Maomé já havia sido sepultado nesse momento,[114][120] sem a participação de Abu Becre nos ritos funerários.[121] Segundo Madelung, Omar teria então dominado as ruas com o auxílio dos aslamitas e dos aucitas, a fim de obter dos habitantes de Medina juramentos de fidelidade ao novo califa.[119] Em ordem cronológica, Abu Becre obteve o apoio de Otomão e dos Banu Omaia, de Sade ibne Ubada e Abederramão ibne Aufe, dos zuraítas, de Zobair e, por fim, de Ali.[5] Albaladuri relata que, ao tomarem conhecimento da escolha de Abu Becre, os haxemitas e alguns companheiros reuniram-se na casa de Ali.[122][27] Entre eles estavam Abas, tio de Maomé, e Zobair.[27] Os opositores sustentavam que Ali era o legítimo sucessor de Maomé,[123][124] possivelmente em referência à declaração do profeta em Gadir Cume.[125] Miquedade ibne Anre, Salmã, Abu Dar Alguifari, Tala e outros companheiros também apoiavam a pretensão de Ali.[126]

Segundo alguns relatos, Abu Becre incumbiu Omar de obter o juramento de fidelidade de Ali.[127][39] Atabari relata que Omar conduziu um grupo armado até a residência de Ali e ameaçou incendiar a casa caso ele e seus apoiadores não prestassem juramento de fidelidade a Abu Becre.[39][123][128][129] A situação tornou-se violenta,[119][130] mas o grupo teria se retirado sem obter o juramento de Ali depois que sua esposa, Fátima, lhes dirigiu um apelo, segundo o al-Imama wa al-Siyasa, obra de autoria sunita.[39][131] Albaladuri apresenta uma versão alternativa, segundo a qual Ali cedeu e prestou juramento de fidelidade a Abu Becre imediatamente após a ameaça de Omar.[132] Em contraste, as coletâneas canônicas Sahih de Albucari e Sahih de Muslim ibne Alhajaje relatam que Ali só prestou juramento a Abu Becre após a morte de Fátima, ocorrida algum tempo depois.[133] Madelung considera que Abu Becre impôs posteriormente um boicote a Ali e aos haxemitas, com o objetivo de fazê-los abandonar o apoio à pretensão de Ali.[134] Como resultado, homens proeminentes deixaram de dirigir-lhe a palavra, segundo um hádice sunita atribuído a Aixa.[134] Jafri acrescenta que aqueles que inicialmente apoiaram Ali gradualmente se afastaram e prestaram juramento de fidelidade a Abu Becre.[135] Ao mesmo tempo, Ali rejeitou propostas para reivindicar o poder pela força,[136][48] possivelmente em nome da unidade da comunidade islâmica nascente.[70][69][64]

Embora haja considerável incerteza acerca dos acontecimentos,[119][135][127][123] Ali provavelmente não prestou juramento de fidelidade a Abu Becre até a morte de sua esposa, ocorrida menos de seis meses depois da morte de Maomé, conforme relatam algumas obras canônicas sunitas.[133] Nas fontes xiitas, a morte de Fátima e o aborto que ela teria sofrido são atribuídos a um ataque à casa de Fátima, realizado por ordem de Abu Becre para submeter Ali.[137][123][124][138] Os sunitas rejeitam categoricamente essas alegações.[138] Depois da morte de Fátima e sem apoio popular suficiente, Ali teria deixado de insistir em sua reivindicação ao califado em nome da unidade da comunidade islâmica nascente,[68][136][70] que, segundo Mavani, enfrentava ameaças internas e externas.[77] Ao contrário do papel que desempenhara durante a vida de Maomé,[78][77] acredita-se que Ali tenha se afastado da vida pública durante os califados de Abu Becre, Omar e Otomão,[139] circunstância interpretada como uma censura silenciosa aos três primeiros califas.[78]

Embora Ali seja reputado por ter aconselhado Abu Becre e Omar em assuntos governamentais e religiosos,[139][140] a desconfiança e a hostilidade recíprocas entre ele e os dois califas encontram-se bem documentadas,[141][142][114] mas são em grande medida minimizadas ou ignoradas nas fontes sunitas.[143][85] Suas divergências manifestaram-se de maneira particularmente clara no conselho eleitoral de 644, quando Ali se recusou a comprometer-se a seguir os precedentes estabelecidos pelos dois primeiros califas.[77][78] Os xiitas, em contrapartida, tendem a interpretar o juramento de fidelidade de Ali a Abu Becre como um ato coagido de conveniência política ou de taquia,[63] havendo também quem rejeite que Ali tenha chegado a prestá-lo.[144] A afirmação de que Ali jurou fidelidade sob coação aparece igualmente no al-Imama wa al-Siyasa,[145] obra algumas vezes atribuída a Ibne Cutaiba (m. 889), mas possivelmente composta por outro autor sunita durante o Califado Abássida.[31] Os conflitos surgidos após a morte de Maomé são considerados a origem histórica da atual divisão entre os muçulmanos.[3] Os que aceitaram o califado de Abu Becre passaram posteriormente a ser chamados sunitas, enquanto os partidários do direito de Ali ao califado deram origem ao xiismo.[146]

Notas

Referências

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