Nausícaa
Na mitologia grega, Nausicaa (em em grego clássico: Ναυσικάα; romaniz.: Nausikáa), filha de Alcinoo, é uma princesa feácia. Ela aparece pela primeira vez na Odisseia, onde resgata o náufrago Odisseu nas costas da Feácia e o leva para o palácio de seus pais, o rei Alcinoo e a rainha Arete. Corajosa e generosa, Nausícaa inspirou muitos autores e artistas durante a Antiguidade, até os dias atuais.

Mito antigo
editarNa Odisseia de Homero
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Nausicaa é uma das personagens da Odisseia de Homero, onde é mencionada principalmente no Livro VI. A deusa Atena aparece para ela em um sonho disfarçada de uma de suas amigas, a instruindo a lavar suas roupas em preparação para o seu casamento. Ela então viaja, acompanhada por suas damas de companhia, até um rio próximo. Assim que terminam o trabalho, jogam bola, e os gritos durante a brincadeira acordaram Ulisses, que havia naufragado ali perto. Nu, sujo, faminto e exausto, o herói decidiu fazer-se notar:[1]
"Pobre de mim! A que terra cheguei? Quais os homens que a habitam?
São, porventura, selvagens violentos, que as leis desconheçam, ou de estrangeiros amigos, e afeitos ao culto dos deuses? Como de moças, soou-me aos ouvidos um grito estridente, provavelmente de ninfas, que moram nos picos dos montes, pelas nascentes dos rios, ou mesmo nos prados ervosos. Eis-me, por certo, chegado ao convívio de gentes que falam. Vamos! Eu próprio hei de logo a verdade saber com meus olhos"
— (VI, 120)
Nausícaa então cuidou de Odisseu, ajudando na sua higiene, dando-lhe roupas e comida. Depois, ela o conduziu até seu pai, Alcínoo, rei da Feácia, e até sua mãe, Arete.
Odisseu permaneceu por um tempo na Feácia e revelou sua identidade derramando lágrimas quando o bardo Demódoco relatou a Guerra de Troia. Odisseu então contou a narrativa de suas próprias aventuras aos feácios. No Livro VII, Alcínoo ofereceu a mão de sua filha em casamento a Odisseu, mas o herói prefere partir o mais rápido possível.
Nausicaa aparece novamente no Livro VIII, onde se despede de Odisseu:[2]
"Salve, estrangeiro! Ao te vires de novo na pátria querida,
lembra-te sempre de mim, a quem deves primeiro a hospedagem."
— (VIII, 460)
Na escrita de outros autores
editarDiversos autores antigos reescreveram o episódio da Odisseia ou imaginaram o que aconteceu na vida de Nausícaa após sua aparição na epopeia homérica. No século V a.C., o dramaturgo ateniense Sófocles compôs uma peça, hoje perdida, da qual se conhecem dois títulos : Nausicaa ou As Lavadeiras (Plyntriai). De acordo com o helenista Timothy Gantz, o segundo título provavelmente se referia às jovens personagens femininas que compunham o o elenco, o que significa que a peça era uma tragédia. No entanto, seu enredo não é conhecido.[3]
O filósofo Agalis de Corcira atribui a passagem da personagem a invenção dos jogos de bola, no século II a.C..
Na Efeméride da Guerra de Troia, de Díctis de Creta (mais tarde se tornou uma das principais fontes para o mito da Guerra de Troia na Idade Média) indica que Nausícaa casou-se posteriormente com Telêmaco, filho de Odisseu, com quem teve um filho chamado Perseptóle ou Ptoliporto.
Em obras de arte da antiguidade
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A cena do encontro entre Ulisses e Nausícaa aparece em cerâmicas da Grécia Antiga.
Em Baltimore[4] esta preservado um exaleiptron de figuras negras que mostra um grupo de mulheres assustadas fugindo, a última delas se vira para gesticular em direção a um casal em profunda conversa. A cena pode ser interpretada como o encontro entre Odisseu e Nausícaa.
Representações após a Antiguidade
editarLiteratura
editar- Goethe concebeu um projeto para uma tragédia intitulada Nausicaa, que ficou inacabada.
- Jules Lemaître encena um encontro entre Nausicaa e Telêmaco em sua coleção de contos, En marge des vieux livres, primeira série (1905) : O casamento de Telêmaco (p. 23).
- Em Ulisses, de James Joyce, o capítulo 13 fala sobre o encontro entre Ulisses e Nausícaa.
- Em "A água e o sonho", do filósofo Gaston Bachelard, ele usa o conceito "complexo de Nausicaa" para designar imagens de livro ilustrados que mostram náiades, ninfas ou mulheres tomando banho, que são representadas no reflexo da água.[5]
- Na peça de Aimé Césaire, Une tempête (baseada na peça de Shakespeare), Ferdinando se refere ao naufrágio de Ulisses e vê em Miranda sua própria versão de Nausicaa.
- O escritor alemão Karl Mickel adaptou o mito de Nausicaa para o teatro em 1967, numa peça com o mesmo nome. Essa releitura permitiu-lhe oferecer uma reflexão sobre o estado da Alemanha na época sem atrair muita atenção da censura alemã.
- No romance de Robert Graves, A Filha de Homero, é Nausicaa quem compõe a Odisseia.
Música
editar- Peggy Glanville-Hicks compôs Nausicaa, ópera que a cantora Teresa Stratas interpretará no Odeão de Herodes Ático, em Atenas.
- Reynaldo Hahn compôs Nausicaa, uma ópera em dois atos, que estreou na Ópera de Monte Carlo em 13 de abril de 1919.
- Em 2013, o cantor francês Luc Arbogast lançou seu álbum Odysseus, no qual interpretou uma faixa intitulada Nausicaa (O Moldau).
- Ainda em 2013, o saxofonista americano Chris Potter gravou um álbum intitulado The Sirens, em que cada faixa narra um trecho da Odisseia. Uma das faixas se chama " Nausikaa "
Pinturas
editarO encontro entre Ulisses e Nausícaa na Odisseia tornou-se um tema convencional em pinturas a partir do Renascimento.Por exemplo:
- Alessandro Allori, Ulisses e Nausicaa, 1580.
- Pieter Lastman, Ulisses e Nausicaa, 1619.
- Salvator Rosa, Ulisses e Nausicaa, c.1655.
- Michele Desubleo, Ulisses e Nausicaa, (L'Ulisse e Nausicaa) c.1655.
- Jacob Jordaens, Ulisses e Nausicaa c. 1630)
- Salvator Rosa - Odisseu e Nausicaa c. 1655
- Louis Gauffier, Ulisses e Nausicaa, 1798.
- Pierre-Auguste Vafflard, Ulisses pedindo ajuda a Nausícaa, filha do rei Alcinoo, 1821.
- Honoré Daumier *, Introdução de Ulisses a Nausica, 1842
- Frederic Leighton, Nausicaa, c.1878.
- Jean Veber, Ulisses e Nausicaa, 1888.
- Valentin Serov, Ulisses e Nausicaa, 1910.
- Kristen Iversen, Ulisses e Nausicaa, 1918.
- Robert Jackson Emerson, Nausicaa 1932
- William McGregor Paxton, Nausicaa, 1937
- W. Heath Robinson: Nausicaa e suas criadas lhe trouxeram comida e vinho (data desconhecida)
- Romare Bearden, Adeus a Nausicaa, 1979
Cinema e televisão
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Em 1984, Hayao Miyazaki adaptou seu próprio mangá, Nausicaä do Vale do Vento (publicado a partir de 1982), para um filme de animação. Apenas o nome da personagem evoca a heroína grega; o filme conta uma história original sem qualquer ligação com a mitologia.
Nausicaa aparece na série animada L'Odysseia. Ela é retratada como uma jovem doce e muito bonita. Sua imensa beleza vem de um espelho mágico, o peso da beleza é muito difícil de suportar, pois acaba por enfeitiçar os homens e fazendo com que fiquem perdidamente apaixonados.
Arquitetura
editarO Midland Hotel, projetado pelo arquiteto Oliver Hill, foi construído entre 1932 e 1933 e apresenta um relevo representando Ulisses e Nausícaa.
Galeria
editarOutras homenagens
editarEm astronomia, Nausicaa dá nome a um asteroide do cinturão principal descoberto pelo astrônomo austríaco Johann Palisa em 1879, (192) Nausicaa.
Em 1991, o centro nacional do mar em Boulogne-sur-Mer, França, recebeu o nome da princesa feácia.
Algumas empresas tambem levam o nome de "Nausicaa".
Notas e referências
editar- ↑ «Tradução do poema da odisseia por Carlos Alberto Nunes» (PDF). Cópia arquivada (PDF) em 18 de julho de 2026
- ↑ «Tradução do poema da odisseia por Carlos Alberto Nunes» (PDF). Cópia arquivada (PDF) em 18 de julho de 2026
- ↑ «Nausica Medical». Cópia arquivada em 10 de março de 2026
- ↑ «Nausica Avocats». Cópia arquivada em 22 de junho de 2026
- ↑ «Michèle Pichon» (PDF) (em francês). Cópia arquivada (PDF) em 19 de abril de 2022
Apêndices
editarBibliografia
editarAutores antigos
editar- Pseudo-Apollodore (VII, 25).
- Dictys de Crète (VI).
- Homère (VI, 13 e segs.; VIII, 455 e seguintes).
- Hygin (CXXVI).
- Odyssée. Col: Bibliothèque de la Pléiade (em grego clássico). Traduzido por Victor Bérard. [S.l.]: Éditions Gallimard. 1993 [1955]. ISBN 2-07-010261-0
Estudos acadêmicos
editar- Timothy Gantz, Mitos da Grécia Arcaica, Berlim, 2004 [ detalhes da edição ].
- Bruit-Zaidman, Louise (1996). «Le Temps des jeunes filles dans la cité grecque». Clio (4). Cópia arquivada em 4 de setembro de 2025