Marietta Baderna
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Marietta Baderna Giannini (nascida Baderna Franca Anna Maria Mattea; Castel San Giovanni, 8 de julho de 1828 – Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1892)[1] foi uma bailarina italiana, radicada no Brasil em 1849. Casou-se com o maestro Gioacchino Giannini no Rio de Janeiro e suas apresentações tornaram-se populares na cidade, onde seu sobrenome entrou para o vocabulário do português brasileiro como sinônimo de "confusão".[2][3][4][5]
| Marietta Baderna Baderna Franca Anna Maria Mattea | |
|---|---|
![]() Litografia de Baderna aos 16 anos | |
| Nome completo | Marietta Baderna Giannini |
| Outros nomes | Maria Baderna |
| Nascimento | 8 de julho de 1828 |
| Morte | |
| Causa da morte | câncer uterino |
| Nacionalidade | italiana |
| Progenitores | Mãe: Luigia Guani Pai: Antonio Baderna |
| Cônjuge | Gioacchino Giannini |
| Filho(a)(s) | 3 |
| Ocupação | bailarina, dançarina |
| Período de atividade | 1839 – 1889 |
Desde cedo teve a inclinação para a dança incentivada pelo pai e, aos doze anos, fez sua estreia nos palcos em Piacenza.[3] Foi aluna do coreógrafo Carlo Blasis e tornou-se membro principal do corpo de baile da Imperial Academia de Dança e Pantomima do Teatro alla Scala de Milão.[5] Baderna era considerada uma das maiores bailarinas da Europa já na adolescência, arrebatando plateias dos principais teatros da Itália e da Inglaterra.[6]
Quando em plena ocupação austríaca na Itália e em meio ao movimento democrático que corria na conturbada Europa nos meados do século XIX,[7] os rebeldes revolucionários mantinham como forma de protesto a decisão de que não houvesse vida artística na Itália enquanto durasse a ocupação.[8] Nesse contexto, Antônio e sua filha cruzam o Atlântico com uma companhia de dança em direção à então capital do Brasil Império, Rio de Janeiro,[7] e desembarcaram em exílio em 1849.[8]
Movida por seu talento, Baderna estreou nos palcos brasileiros e seu sucesso foi um acontecimento muito celebrado à época,[8] e "baderna" tornou-se sinônimo de "beleza", mas posteriormente, recebeu críticas por parte da elite conservadora ao introduzir, entre os passos do balé clássico, gestos do lundu, da umbigada e de outras danças afro-brasileiras. Em meio a essa polêmica, aqueles que defendiam sua dança, passaram a ser chamados de "baderneiros"[7] e a palavra "baderna" mudou o seu significado e tornou-se sinônimo de "confusão" ou "tumulto".
Biografia
editarPrimeiros anos e juventude
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Baderna nasceu em 8 de julho de 1828 em Castel San Giovanni — atual província de Placência —, filha do cirurgião Antonio Baderna e de Luigia Guani.[1] Aos onze anos de idade, iniciou os estudos de ballet na escola de dança de Carlo Blasis, estreando aos treze anos no Teatro Municipale di Piacenza. Passou a atuar em diferentes palcos europeus, de Londres a Milão onde, posteriormente, passaria a fazer parte da companhia de dança do Teatro alla Scala,[9] já se destacando como "Prima Ballerina Assoluta" (Primeira Bailarina Absoluta) com sucesso por toda a Itália e participando de diversas turnês em outros países europeus.[8]
Em 1847, apresentou-se na Inglaterra tendo uma temporada de sucesso na Royal Opera House, no distrito de Covent Garden em Londres.
Voltou para a Itália, mas o clima político obrigou-a a deixar o país. Na época, seu país estava dividido e uma parte sob a dominação da Áustria. Jovem ainda, Baderna chegou a contribuir financeiramente para as conspirações patrióticas e pela unificação; ela e seu pai eram seguidores de Giuseppe Mazzini, líder do movimento republicano, derrotado pelos monarquistas e austríacos após a Revolução de 1848, também chamada de Primavera dos Povos.[5][6] Com a derrota do movimento revolucionário que varreu a Europa, e para fugir às represálias, ela e o pai Antônio Baderna, que havia participado das revoltas, se auto-exilam no Brasil.
Um mês antes de Baderna completar 21 anos, recebe convite do maestro Gioacchino Giannini, encarregado pelo Theatro São João para se apresentar com a troupe da Companhia Lírica Italiana no Brasil. Assim, embarca juntamente com o pai no navio italiano Andrea Doria, partindo de Gênova em 5 de junho de 1849.[6][10]
Vida no Brasil
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Baderna desembarcou no Rio de Janeiro em agosto de 1849 e fez sua estreia em 28 de setembro de 1849 no balé Il Ballo delle Fate ("O Lago das Fadas"), coreografado por Giuseppe Villa, causando grande comoção na sociedade e recebendo uma série de críticas positivas, publicadas em vários jornais do Rio de Janeiro.[10][8]
No ano seguinte, em 1850, cidade seria acometida por uma epidemia de febre amarela e diversos integrantes da companhia teatral, como também seu pai, vieram a falecer.[9] Considerada como a grande bailarina do Romantismo brasileiro, Baderna chegou a ter uma das maiores remunerações do teatro após a morte de seu pai.[9]
Suas apresentações foram incorporando danças afro-brasileiras, como o lundu e a umbigada, apesar de serem consideradas "escandalosas" para a sociedade escravista brasileira, faziam sucesso, lhe garantindo um grupo de fãs ardorosos. As manifestações exaltadas desses fãs garantiram-lhes o nome de "badernistas", e a palavra "baderna" tornou-se sinônimo de "confusão" ou "tumulto".[3][11]
Talvez por ser conhecedora de danças folclóricas como a cachucha, Baderna tenha se encantado com a sensualidade dessas danças ao ar livre,[10] em locais como o Largo da Carioca, chegando a participar das mesmas com os próprios escravos. Um escândalo para a sociedade escravagista e hipocritamente sexofóbica, como diz seu biógrafo, o jornalista italiano Silvério Corvisieri, que fez uma reconstrução histórica da cidade do Rio de Janeiro e do cotidiano brasileiro de meados do século XIX. Em meio aos ataques, Baderna e os fãs revoltados eram defendidos por figuras como o escritor José de Alencar e o respeitado poeta e editor Francisco de Paula Brito.[6][12]
Sofria represálias nas óperas, sua dança era deixada para o final ou então não renovavam o seu contrato. Os jovens, seus fãs radicalizavam; para protestar contra a direção dos teatros, boicotavam os espetáculos, ou faziam a "pateada" (ato de bater os pés no chão), interrompendo espetáculos no meio e fazendo manifestações ainda mais radicais.[6]

Viúva aos 34 anos, passou um tempo fora dos palcos e, em 1861, viajou para a França, apresentando-se no Théatre Imperial du Châtelet em Paris na opereta Rothomago, com Les Clowns Du Diable e o Grand Ballet Des Dentelles; também se apresentou no Grand Théatre de Bordeaux. Ao retornar ao Brasil, é contratada para a temporada de 1864 a 1865 e brilha nos tablados brasileiros até 1871.
Após se aposentar dos palcos, ministra aulas de dança para moças no Rio de Janeiro como informa o Almanaque Laemmert numa edição de 1884, que cita à página 595, o nome de Baderna numa lista de professores de dança "com endereço à Rua do Theatro, 17 e à Travessa da Rainha, 10-B, Engenho Velho".[10] Continua nesse ofício até o ano de 1889.[6][12]
Morte
editarSegundo certidão de óbito, registrada pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, Baderna morreu em decorrência de um câncer uterino em 3 de fevereiro de 1892[1] em sua residência, deixando três filhos: Antonio, Henriqueta e Fanny. Foi sepultada no Cemitério de São Francisco Xavier no dia seguinte.[13][14]
Homenagens
editar- O nome da bailarina foi adotado em 2010 pelo coletivo formado por mulheres do curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP): "Coletivo Feminista Marias Baderna";[9]
- No carnaval de 2013, surgiu o "Bloco Maria Baderna" no município de Contagem, em Belo Horizonte.[9] Criado durante uma ocupação urbana[15] onde, um grupo de artistas e produtores culturais se organizaram para reivindicar melhorias na cultura da cidade e foram tachados de "baderneiros" por um funcionário da Prefeitura de Contagem.[16] Entre os destaques que compõem o bloco, é o próprio boneco da Maria Baderna;[15]
- "Maria Baderna" foi um dos episódios da segunda temporada da série Mulheres Fantásticas exibida em 2019 pelo Fantástico, onde a atriz Leandra Leal fez a narração;[17]
- Baderna também foi enredo da União da Ilha do Governador no carnaval de 2025. BA-DER-NA! Maria do Povo é o título que a escola de samba levou para o Sambódromo da Marquês de Sapucaí.[18]
Legado
editarInfluência no português brasileiro
editarApesar de certo desconhecimento etimológico, por conta do processo linguístico que transformou um nome próprio num substantivo, o termo "baderna" está devidamente inserido no léxico e na cultura brasileira.[10]
O Diccionario Brazileiro da Lingua Portugueza, editado parcialmente pela Bibliotheca Nacional em 1889, o definiu como substantivo feminino, significando "súcia quase sempre dançante", onde a palavra "súcia" signfica "pessoas de má índole, geralmente os pobres". O exemplo dado no dicionário, clarifica o termo: "Este sujeito leva a noite toda tocando viola no meio de uma baderna de sujeitos conhecidos pelas autoridades do lugar como incorrigíveis" e declarando que a palavra deriva de "Marietta Baderna, célebre dançarina que esteve na Corte em 185… causando furor. 'Badernas' chamam-se seus admiradores e partidários".[nota 1][19][20]
Na atualidade, o Dicionário Aurélio (1986) e o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2007), definem a palavra como sinônimo de "bagunça", "anarquia" e "contestação", com ambos reconhecendo o antropônimo de Marietta Baderna.[10]
Ver também
editarNotas
Referências
- 1 2 3 4 Rabetti, Maria de Lourdes; Alcure, Adriana Schneider (2 de julho de 2015). «Contribuição dos estudos de caso e da pesquisa indiciária para a história do espetáculo: o lundu que Maria Baderna teria dançado em Recife». São Paulo: USP. Sala Preta. 15 (1): 70-86. ISSN 2238-3867. doi:10.11606/issn.2238-3867.v15i1p54-70. Consultado em 3 de abril de 2026. Cópia arquivada em 27 de abril de 2026
- ↑ Calsavara, Katia (31 de julho de 2001). «Marietta Baderna vai dos dicionários à biografia § Literatura»
. Folha de S.Paulo. Consultado em 8 de setembro de 2017. Cópia arquivada em 13 de maio de 2026 - 1 2 3 Pimenta, Reinaldo (2002). A casa da mãe Joana: curiosidades nas origens das palavras, frases e marcas. Rio de Janeiro: Editora Campus. p. 33. ISBN 9788535210514
- ↑ «A origem e o mito da baderna»
. Estadão. 31 de agosto de 2001. Consultado em 25 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 30 de novembro de 2021 - 1 2 3 Avella, Aniello Angelo (1 de janeiro de 2014). Tereza Cristina de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos 1843-1889. [S.l.]: SciELO - EDUERJ. pp. 210–212. ISBN 9788575114445. Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2025
- 1 2 3 4 5 6 Bueno, Márcio (27 de junho de 2021). «A Origem Curiosa das palavras: Baderna». Bafafá. Consultado em 25 de agosto de 2021. Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2025
- 1 2 3 «Maria Baderna § Programação/Bloco de rua». Portal Belo Horizonte. N.d. Consultado em 1 de março de 2026
- 1 2 3 4 5 Paiva, Vitor (27 de agosto de 2018). «A bailarina Baderna e a história de resistência por trás dessa palavra § Arte». Hypeness. Consultado em 23 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 27 de maio de 2022
- 1 2 3 4 5 Cambruzzi, Bianca Novais (19 de outubro de 2023). «Marietta Baderna - Biografia § Personalidade». Impressões Rebeldes. Consultado em 27 de março de 2026. Cópia arquivada em 10 de abril de 2026
- 1 2 3 4 5 6 Dutra, Robson; Aragão, Vera (julho–dezembro 2011). «O Teatro São Pedro de Alcântara, Maria Baderna e algumas memórias do Rio de Janeiro do século XIX § Artigos» (PDF). Revista InterFACES/Centro de Letras e Artes UFRJ. Rio de Janeiro: 7 Letras. pp. 97–115. ISSN 1516-0033. Consultado em 27 de março de 2026
- ↑ BUENO, Márcio (2003). A Origem Curiosas das Palavras 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora José Olympio. 264 páginas. ISBN 8503007606
- 1 2 CORVISIERI, Silverio (2001). Maria Baderna - a Bailarina de Dois Mundos. Rio de Janeiro: Editora Record. 240 páginas. ISBN 9788501058034
- ↑ «Convite enterro (anúncio)». Jornal do Commercio (4). 4 de janeiro de 1892. p. 6. Consultado em 25 de novembro de 2018. Cópia arquivada em 24 de setembro de 2020
- ↑ «Missas». Jornal do Brasil (9). 9 de janeiro de 1892. p. 2. Consultado em 25 de novembro de 2018. Cópia arquivada em 17 de julho de 2019
- 1 2 «Bloco Maria Baderna desfila no Santa Tereza dia 17/2 § Carnaval 2026». Curadoria. 6 de fevereiro de 2026. Consultado em 1 de março de 2026
- ↑ Mello, Alessandra (17 de fevereiro de 2026). «Conheça o bloco que homenageia a responsável pela palavra baderna». Estado de Minas. Consultado em 1 de março de 2026. Cópia arquivada em 8 de março de 2026
- ↑ Reis, João Paulo (29 de novembro de 2019). «Fantástico estreia nova temporada de Mulheres Fantásticas neste domingo; saiba como será». Observatório da TV. Consultado em 4 de abril de 2026
- ↑ «Baderna de Astrid Fontenelle: apresentadora influenciou enredo da União da Ilha». Band.Uol. 8 de janeiro de 2025. Consultado em 16 de fevereiro de 2025. Cópia arquivada em 26 de janeiro de 2025
- 1 2 Soares, Dr. Antonio Joaquim de Macedo (1889). baderna. Diccionario Brazileiro da Lingua Portugueza. Rio de Janeiro: Bibliotheca Nacional. p. 65. Consultado em 14 de maio de 2026
- ↑ Silva, Paulo Celso da (22 de abril de 2020). «Baderna! Baderna! Baderna!». Jornal Cruzeiro. Consultado em 10 de maio de 2026. Cópia arquivada em 18 de maio de 2026
- Bibliografia
- GIANNINI, Paula (2023). Baderna - O Memoricídio no Dicionário. São Paulo: Palco das Letras. p. 310. ISBN 9786599409998. Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2025


