Mandioca
Manihot esculenta, conhecida como mandioca, macaxeira, aipim, castelinha, uaipi, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniva, maniveira, pão-de-pobre,[1] mandioca-brava e mandioca-amarga, é uma planta da família das Euphorbiaceae.[2] Esta planta é nativa da América do Sul, no entanto está presente em muitas regiões do mundo.
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Mandioca/aipim exposta à venda | |||||||||||||||
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Ver texto | |||||||||||||||
O seu consumo só pode ocorrer depois de uma etapa de cozimento que reduza o conteúdo de HCN (cianeto de hidrogênio) para níveis muito baixos. Como o cianeto de hidrogénio é muito volátil, a sua redução ocorre devido à temperatura de cozimento, o que ocasiona a evaporação do composto.
É a terceira maior fonte de carboidratos nos trópicos, depois do arroz e do milho,[3][4] e é um dos principais alimentos básicos no mundo em desenvolvimento, existindo na dieta básica de mais de meio bilhão de pessoas.[5] Espalhada para diversas partes do mundo, tem hoje a Nigéria como seu maior produtor.[6]
No Brasil, o termo mandioca-amarga ou mandioca-brava é utilizado para as plantas com teor de ácido cianídrico (HCN) superior a 100 mg/kg; enquanto que o termo macaxeira, mandioca-mansa, mandioca de mesa ou aipim, é utilizado nas plantas que possuem menos de 50 mg de HCN por kg de raiz fresca sem casca.[7][8]
Etimologia
editar"Mandioca" origina-se do termo tupi mani'oka, ou mandi'oka,[9] que significa "mani arrancado", isto é, extraído da terra (do verbo 'ok, arrancar). Mani- é um elemento de composição, presente também em maniva, maniçoba, etc, mas cujo significado isolado não é determinado.[10]
"Maniva" origina-se do termo tupi mani'yba, literalmente "pé de mani".[9] "Aipim" origina-se do termo tupi aîpĩ.[9]
Doenças fitossanitárias
editarAs doenças estão entre as principais causas da queda de produção e produtividade da cultura da mandioca. No estado do Pará, a exemplo, as podridões radiculares são responsáveis pelas maiores perdas.[11]
Podridão Radicular – Afeta principalmente os cultivos da região norte. Estima-se que na região amazônica em áreas de várzea a perda chegue a mais de 50% e, em áreas de terra firme, 30%. Já em áreas que detêm solos com má drenagem da água da chuva observa-se que estas perdas são, na maioria dos casos, totais.[11]
A sintomatologia observada nas raízes permite distinguir em dois grupos de podridões:
a) Podridão mole: Os agentes etiológicos são espécies de Phytophthora e Pythium, atualmente classificados no reino Chromista (Stramenopila). Tais organismos fitopatogênicos infectam as plantas, causando podridão-mole, decorrente de características necróticas dos patógenos que atuam na maceração dos tecidos de reserva, levando a desintegração das raízes, que liberam um odor forte e característico. O amarelecimento e murcha da parte aérea da planta são sintomas reflexos do apodrecimento das raízes, geralmente observado a partir do 2 ou 3 meses de intensa ocorrência de chuvas.[11]
b) Podridão Seca: Especies de Fusarium, Scytalidium, Lasiodiplodia e Diplodia são os principais agentes etiológicos da podridão-seca, a qual se caracteriza pela ocorrência de áreas necróticas secas e/ou pontuações enegrecidas nos tecidos internos das raízes e também na casca.[11]
Sinônimos
editarSinônimos e nomes arcaicos:[12]
- Janipha aipi (Pohl) J.Presl
- Janipha manihot (L.) Kunth
- Jatropha aipi (Pohl) A.Moller
- Jatropha diffusa (Pohl) Steud.
- Jatropha digitiformis (Pohl) Steud.
- Jatropha dulcis J.F.Gmel.
- Jatropha flabellifolia (Pohl) Steud.
- Jatropha loureiroi (Pohl) Steud.
- Jatropha manihot L.
- Jatropha mitis Rottb.
- Jatropha paniculata Ruiz & Pav. ex Pax
- Jatropha silvestris Vell.
- Jatropha stipulata Vell.
- Mandioca aipi (Pohl) Link
- Mandioca dulcis (J.F.Gmel.) D.Parodi
- Mandioca utilissima (Pohl) Link
- Manihot aipi Pohl
- Manihot aypi Spruce
- Manihot cannabina Sweet
- Manihot diffusa Pohl
- Manihot digitiformis Pohl
- Manihot dulcis (J.F.Gmel.) Baill.
- Manihot edule A.Rich.
- Manihot flabellifolia Pohl
- Manihot flexuosa Pax & K.Hoffm.
- Manihot guyanensis Klotzsch ex Pax
- Manihot loureiroi Pohl
- Manihot melanobasis Müll.Arg.
- Manihot sprucei Pax
- Manihot utilissima Pohl
Cultivares (variedades)
editarA cultura da mandioca[13] apresenta ampla variabilidade genética representada pelo grande número de cultivares disponíveis no Brasil, seu local de origem. Até 2006 já haviam sido catalogadas, apenas no Brasil, mais de 4 mil delas mantidas em coleções e bancos de germoplasma de várias instituições de pesquisa. A maioria dessas cultivares é fruto do trabalho de seleção e conservação dos agricultores em suas lavouras durante anos seguidos. São as chamadas variedades crioulas.[14]
O ciclo cultural da mandioca é o período que vai do plantio à colheita. As cultivares de mandioca têm ciclos que variam de 6 a 36 meses e, com base neles, são classificadas em:
- Precoces (ciclo de 10 a 14 meses);
- Semiprecoces (ciclo de 14 a 16 meses);
- Tardias (ciclo maior que 18 meses).
A mesma cultivar dificilmente se comporta de forma semelhante em todos os locais pois, por apresentar alta interação do genótipo com o ambiente, caracteriza-se por adaptação localizada, podendo o comportamento de uma mesma cultivar variar até entre lavouras de agricultores da mesma região, em decorrência de diferenças de solo ou de manejo do cultivo.
É considerada planta rústica e com ampla capacidade de adaptação, sendo cultivada em todas as regiões tropicais, adaptando-se às mais variadas condições de clima e solo. Independentemente de sua ampla variabilidade genética e de sua interação com o ambiente, os principais parâmetros ecológicos da mandioca são constituídos por temperatura, radiação solar, fotoperíodo, regime hídrico e solo.
O principal critério utilizado na seleção de cultivares para consumo humano é a existência de baixo teor de ácido cianídrico nas raízes. Características como tempo de cozimento das raízes, palatabilidade, ausência de fibras na massa cozida e resistência à deterioração após a colheita também devem ser consideradas.
As cultivares recomendadas para a alimentação animal devem apresentar alto rendimento de raízes e da parte aérea, boa retenção foliar, alto teor de proteína nas folhas e teor mínimo de ácido cianídrico, tanto nas folhas como nas raízes.
Composição nutricional
editarA mandioca é rica em fibras, isenta de glúten e possui 3 vezes mais calorias que a batata. Possui dois tipos de carboidrato: a amilopectina e a amilose.
Valor nutricional por 100 g de mandioca[15]
- Calorias (Kcal)……………………160
- Proteínas (g)……………………..1,36
- Lipídeos (g)……………………….0,28
- Carboidratos (g)……………….38,06
- Fibras (g)……………………………1,8
- Cálcio (mg)………………………….19
- Vitamina C (mg)…………………20,6
Toxicidade
editarA mandioca se difere das outras plantas produtoras de amido por seu teor de linamarina (beta-glicosídeo de acetona cianidrina), que pode gerar cianeto livre (ânion CN−) o qual, em água, forma ácido cianídrico, cianeto de hidrogênio ou cianureto de hidrogênio, (HCN),.[16] composto extremamente volátil, porém, altamente tóxico podendo em pequenas quantidades provocar ataxia e morte[13] Isto deve-se ao fato de que os cianetos iónicos se coordenam com íons férricos contidos no citocromo oxidase III da mitocondria, impedindo a redução do oxigênio em água da cadeia transportadora de elétrons, matando a pessoa exposta por sufocamento.[17] Por esta razão é necessário o cozimento da Mandioca antes do seu consumo para que diminua o conteúdo de HCN para valores abaixo de 0,5 mg/kg de produto[18] A dose letal de HCN para o ser humano oscila entre 50 a 60 mg/kg de peso-vivo.[16]
Em relação à quantidade de HCN/kg na raiz fresca sem casca, as cultivares são classificadas em:
- mansas — aipim ou macaxeira (<50 mg), não têm sabor amargo e são usadas para consumo humano. O cozimento, fritura ou assamento são processamentos suficientes para torná-las seguras;
- moderadamente venenosas (entre 50 a 100 mg);
- bravas ou venenosas (> 100 mg), têm sabor amargo, são usadas somente para fins industriais e só podem ser consumidas após processadas, na forma de farinha, fécula e outros produtos.
A macaxeira (mandioca mansa, de mesa ou aipim), por apresentar baixos teores de ácido cianídrico (<50 mg/kg), pode ser consumida após pouco processamento culinário (cozer em água, ou leve cozedura seguido de fritura etc).[7]
No entanto para a mandioca (mandioca braba), por apresentar altos teores de ácido cianídrico (>50 mg/kg), é necessário cozimento por um tempo mínimo de 50 horas a uma temperatura de 100 °C.[17] A forma mais utilizada para alcançar isto é o processamento tradicional, que consiste na moagem seguida da retirada da manipuera (ou manipueira), líquido libertado que pode ser usado para a produzir goma e tucupi, e, por fim, a torrefação[13]
Produção agrícola
editar
Segundo a FAO, a mandioca é plantada em mais de 100 países, sendo os maiores produtores[19] a Nigéria, a Tailândia, o Brasil, a Indonésia, Angola, Gana e a República Democrática do Congo, respectivamente.[20] Segundo a FAO,[19] em 2008, foram produzidas aproximadamente 25,9 milhões de toneladas, no Brasil; 8,9 milhões, em Angola; 5 milhões, em Moçambique; 50 mil, em Timor-Leste; 48 mil, em Guiné-Bissau e 6,3 mil toneladas, em São Tomé e Príncipe.
Em 2016, a Nigéria liderava a produção de mandioca em raiz com 20%, seguida pela Tailândia (11%), Indonésia (9%) e Brasil (8%).[21]
Em 2010, o rendimento médio foi de 12,5 toneladas por hectare de cultura da mandioca em todo o mundo. As fazendas de mandioca mais produtivas em todo o mundo estavam na Índia, com uma produtividade média nacional de 34,8 toneladas por hectare em 2010.[22]
Os maiores produtores no Brasil são: Pará, Paraná, Bahia e Maranhão.[23]
A mandioca desempenha um papel vital na segurança alimentar das economias rurais dos países da África subsariana devido à sua resistência à seca, baixa fertilidade do solo e pragas.[24]
Produção mundial
editar| País | Produção em 2018 (toneladas anuais) |
|---|---|
| 59.475.202 | |
| 31.678.017 | |
| 29.952.479 | |
| 20.845.960 | |
| 17.644.733 | |
| 16.119.020 | |
| 9.847.074 | |
| 8.659.552 | |
| 8.525.451 | |
| 7.646.022 | |
| Total mundial | 277.808.759 |
| Fonte: Food and Agriculture Organization[25] | |
Lendas
editarO folclorista Câmara Cascudo registra alguns mitos sobre a mandioca. São eles:
Entre os parecis, povo de Mato Grosso, no Brasil, a história é a seguinte: Zatiamare e sua esposa Kôkôtêrô tiveram um par de filhos — o menino Zôkôôiê e uma menina, Atiolô — desprezada pelo pai, que a ela nunca falava senão por assobios. Amargurada pelo desprezo paterno, a menina pediu à mãe que a enterrasse viva; esta resistiu ao estranho apelo mas, ao fim de certo tempo, atendeu-a: a menina foi enterrada no cerrado, onde o calor a desagradou e, depois no campo, também lugar que a incomodara. Finalmente foi enterrada na mata, onde foi do seu agrado; recomendou à mãe para que não olhasse quando desse um grito, o que ocorreu após algum tempo. A mãe acorreu ao lugar, onde encontrou um belo e alto arbusto que ficou rasteiro quando ela se aproximou; a índia Kôkôtêrô, porém, cuidou da planta que mais tarde colheu do solo, descobrindo que era a mandioca.[26]
Entre os bacairis, conta-se a lenda de um veado que salvara o bagadu (peixe da família Practocephalus) que, para recompensá-lo, deu-lhe mudas da mandioca que tinha ocultas sob o leito do rio. O veado conservou a planta para alimentação de sua família mas o herói dos bacairis, Keri, conseguiu pegar do animal a semente, que distribuiu entre as mulheres da tribo.[27]

A lenda de Mani foi registrada em 1876, por Couto de Magalhães. Em domínio público, este foi o registro do folclorista:
- "Em tempos idos, apareceu grávida a filha dum chefe selvagem, que residia nas imediações do lugar em que está hoje a cidade Santarém. O chefe quis punir no autor da desonra de sua filha a ofensa que sofrera seu orgulho e, para saber quem ele era, empregou debalde rogos, ameaças e por fim castigos severos. Tanto diante dos rogos como diante dos castigos a moça permaneceu inflexível, dizendo que nunca tinha tido relação com homem algum. O chefe tinha deliberado matá-la, quando lhe apareceu em sonho um homem branco que lhe disse que não matasse a moça, porque ela efetivamente era inocente, e não tinha tido relação com homem. Passados os nove meses, ela deu à luz uma menina lindíssima e branca, causando este último fato a surpresa não só da tribo como das nações vizinhas, que vieram visitar a criança, para ver aquela nova e desconhecida raça. A criança, que teve o nome de Mani e que andava e falava precocemente, morreu ao cabo de um ano, sem ter adoecido e sem dar mostras de dor. Foi ela enterrada dentro da própria casa, descobrindo-se e regando-se diariamente a sepultura, segundo o costume do povo. Ao cabo de algum tempo, brotou da cova uma planta que, por ser inteiramente desconhecida, deixaram de arrancar. Cresceu, floresceu e deu frutos. Os pássaros que comeram os frutos se embriagaram, e este fenômeno, desconhecido dos índios, aumentou-lhes a superstição pela planta. A terra afinal fendeu-se, cavaram-na e julgaram reconhecer no fruto que encontraram o corpo de Mani. Comeram-no e assim aprenderam a usar da mandioca."[28]
Câmara Cascudo acrescenta que o nome "mandioca" advém de Mani + oca, significando "casa de Mani". É, segundo este autor, um mito tupi, recontado em obras posteriores, como Lendas dos Índios do Brasil, de Herbert Baldus (1946), e Antologia de Lendas dos Índios Brasileiros, de Alberto da Costa e Silva (1956).[29]
Utilização
editarCulinária do Brasil
editar

Como encontra-se na clássica obra Casa-Grande & Senzala, ao chegarem ao Brasil, os primeiros europeus se espantaram com a fartura da farinha de mandioca, muito mais abundante e fácil de ser obtida que a farinha de trigo europeia. No Brasil Colônia, foi um dos principais alimentos utilizados pelos colonos.[30] Em forma de farinha, integrava vários pratos como bolo, beiju, sopa, angu e, às vezes, misturada apenas com água ou com feijão e carne, quando havia.[31] O amido da mandioca também pode ser processado em forma de bolinhas para formar o sagu.[32]
Os tipos de farinhas comuns na região Norte do Brasil:[33]
- Farinha-d'água
- Farinha de tapioca
- Farinha do uarini
- Farinha suruí
Culinária da Colômbia
editarCulinária das Filipinas
editarNas Filipinas, o bolo de mandioca ou Kakanin é uma das sobremesas caseiras mais populares e apreciadas. É feito a partir de mandioca ralada (Kamoteng Kahoy), misturado com leite de coco, ovos e manteiga e coberto com uma mistura de leite cremoso. É também chamado de cassava bibingka.[35]

No Brasil, a raiz tuberosa da mandioca é consumida de várias formas. Há muitos tipos de farinha de mandioca, que são resultantes da ralagem, prensagem e secagem da raiz da mandioca, e a farinha de tapioca ou polvilho, que é feita com o fino amido proveniente da decantação do caldo prensado da massa de mandioca. Da mandioca fermentada é produzida a puba.
Dela, também são feitas bebidas como o cauim (indígena), feito através de fermentação. Por meio de um processo de destilação, também é produzida uma cachaça ou aguardente de mandioca: a tiquira.[36] Possui elevado teor alcoólico. É comum no estado do Maranhão mas é pouco conhecida no restante do Brasil.[37]
Dela, também se faz outra farinha: o polvilho (fécula de mandioca), doce ou azedo, que serve para a preparação de diversas comidas típicas brasileiras, como o pão de queijo. Apesar de frequente em países da África e da Ásia, para onde foram levadas pelos colonizadores ibéricos, o hábito de se utilizar as folhas da planta para alimentação, no Brasil, só ocorre na Região Norte.
Na África, é comum consumir-se, além da raiz, também as folhas jovens em forma de esparregado. Em Moçambique, estas são piladas (moídas no pilão), juntamente com alho e a própria farinha seca da raiz e, depois, cozinhada normalmente com um marisco (caranguejo ou camarão); esta comida se chama matapa e é uma das mais populares da culinária moçambicana. Em Angola, este esparregado é conhecido como kissaca.
A farinha de mandioca comumente é preparada a partir da mandioca-brava. Para se extrair a manipuera, é necessário o uso do tipiti ou outro tipo de prensa. Dela, retira-se a caiarema ou carimã. No linguajar popular, polvilho.
"Manipuera" se origina dos termos tupis:
- Mani = o nome da menina,
- puera (guera) = tem o significado de ruim (a parte ruim da mani), o que já foi, velho.
Uso pelos nativos americanos
editar| “ | Para sustento destes meninos, a farinha de pau era trazida do interior, da distância de 30 milhas. Como era muito trabalhoso e difícil por causa da aspereza do caminho, ao nosso Padre (Padre Manuel da Nóbrega) pareceu melhor no Senhor mudarmo-nos para esta povoação de índios, que se chama Piratininga.(...) Por isso, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia no ano do Senhor de 1554, chegamos a ela a 25 de janeiro e celebramos a primeira missa numa casa pobrezinha e muito pequena no dia da conversão de São Paulo, e por isso dedicamos ao mesmo nome esta Casa. | ” |


A mandioca tinha uma enorme importância para a alimentação dos índios e dos primeiros colonizadores do Brasil e, como se vê acima no trecho de carta do Padre José de Anchieta de 1554, foi o motivo para a fundação da cidade de São Paulo.[39]
Os cintas-largas de Mato Grosso e Rondônia obtinham a raiz de maneira peculiar: ao invés de arrancar o pé inteiro, como quase todos os outros índios faziam, suas mulheres cavavam o solo e removiam apenas as raízes grandes, deixando as menores se desenvolverem.[40]
Os tupinambás da Bahia faziam a giroba, um tipo de cauim, que também servia como alimento. A mandioca era descascada, cortada em pedaços, cozida, socada em pilão, cozida novamente com mais água e colocada em vasilhame para fermentar. A massa cozida não era mastigada como na maioria dos cauins, sendo amassada no pilão e mesmo assim ocorria o processo de fermentação. As mães alimentavam crianças pequenas com a giroba, que, segundo a crença, permitia-lhes que se desenvolvessem em adultos fortes e saudáveis.[41]
Nos estados do Maranhão, Piauí[42] e Ceará, é produzida a tiquira, bebida resultante da destilação da mandioca.
Os araras do Pará, que eram nômades não cultivavam mandioca.[43] Os omáguas do Alto Amazonas colhiam a mandioca e a enterravam deixando apodrecer parcialmente e assim a consumiam. Os camaiurás de Mato Grosso, para virar beiju, talhavam na madeira a pá, que apresentava a extremidade semi circular.[39]
Os caiabis de Mato Grosso assavam a mandioca com casca na brasa, descartavam a casca e deixavam-na de molho na água. No outro dia, a mandioca era amassada e comida fria.[44] Algumas tribos não conheciam o tipiti, como os paracanãs, do Pará. Faziam a farinha cortando a mandioca, cozendo-a e espremendo-a em uma esteira para remover a parte líquida. As bolas de mandioca eram secas em um jirau, desfeitas, peneiradas e torradas[45]
Da mandioca, os ameríndios obtinham uma grande variedade de derivados:
Arumbé: massa de mandioca com pimenta.[46]
Beiju: o pão de mandioca é feito em farelos e aspergido com água, resultando em uma massa grudenta que é espalhada sobre uma chapa quente, sendo continuamente virada de um lado e do outro.[47]
Os caiabis de Mato Grosso faziam o beiju deixando a mandioca brava de molho por uns dias. Depois ela era descascada e bem seca ao sol. Ela era socada no pilão, umedecida e assada de um só lado. Os Txukahamãe ou Megaron da mesma região envolviam a massa de mandioca em forma de quadrado em folha de bananeira e a colocavam entre pedras aquecidas, cobriam-na com mais folhas e terra e a deixavam assar por horas. Os xirianás de Roraima assavam não só o beiju nos largos discos de argila, como também carnes de caça.[48]
Um modo diferente de preparar o beiju era praticado pelos Haló’ T´é Sú de Mato Grosso. Removiam as cinzas e brasas do fogo e no local colocavam a farinha, que era comprimida até formar os beijus. As cinzas e brasas eram sobre eles colocadas, que ficavam assados em quinze minutos. As brasas eram removidas com uma vareta e os beijus batidos para a remoção das cinzas.[49]

Os nativos das Américas preparavam vários tipos de beijus e outros pratos derivados da mandioca:
- Aaru — beiju de massa de mandioca com tatu moqueado e moído.[50]
- Beiju-açu — beiju de massa de mandioca peneirada e torrada.[51]
- Beiju-cambraia — feito com massa de tapioca, alvo, tenro e quase transparente.[48][51]
- Beiju-carimã — beiju utilizado para se fazer caxiri na festa da puberdade das moças.[48][51]
- Beiju-cica — de massa de mandioca fresca, cortado e torrado, com aparência de um folhado.[48][51]
- Beiju-curua — de massa de mandioca, sal e castanha ralada, envolto em folha de bananeira e assado.[48][51]
- Beiju-curuba — semelhante ao beiju curucaua, mas a castanha de caju ou a castanha-do-pará são adicionadas em pedaços e não raladas.[48][51]
- Beiju-curucaua — grande e chato, feito de tapioca granulada com castanha de caju ou castanha-do-pará ralada.[48][51]
- Beiju-enrodilhado — beiju normal, mas que é enrolado ao invés de dobrado em dois.[48][51]
- Beiju-mambeca — um tipo de beiju mole, que não era torrado, apenas aquecido para a massa aglutinar.[48][51]
- Beiju-marapatá — envolto em folhas de bananeira e assado sobre cinzas.[48][51]
- Beiju-peteca — pequeno beiju comprido de massa de mandioca puba, castanha e gordura.[48][51]
- Beiju-pixuna — usado em viagens, é grande e escuro.[48][51]

- Beiju-poqueca — assado envolto em folha de bananeira, contendo apenas massa de mandioca e sal.[48][51]
- Beiju-teica — de polvilho fresco de mandioca com farinha d’água.[48][51]
- Beiju-ticã — de massa de mandioca puba seca e socada.[48][51]
- Beiju-tinin — seco ao sol até endurecer.[48][51]
- Beiju-tininga — muito durável e feito de polvilho de mandioca puba, que é pilada depois de torrada.[48][51]
- Beiju-tipioca — de polvilho peneirado e torrado; outro tipo de beiju sem nome específico era feito com massa de mandioca com carne de caça previamente torrada e pilada.[48][51]
- Beijusicica — mingau de polvilho feito pelos Crichaná de Roraima.[52]
- Caxiri — a massa de mandioca é cozida com bastante água e a fermentação é causada pela adição de sobras de beiju velho ou pela mastigação da massa.[53]
- Cauim de amendoim — Um tipo de mingau feito com farinha de mandioca, amendoim torrado e moído e, às vezes, farinha de milho.[44]
- Chibé — bebida não alcoólica feita pela mistura de farinha de mandioca com água.[46][47]
- Curada — semelhante ao beiju, porém mais rico em polvilho e mais espesso.[39]

- Farinha de mandioca — misturava-se a massa ralada da mandioca fresca com a da puba. Mandioca puba é a deixada por alguns dias de molho na água. A massa era espremida com a mão e depois com o auxílio do tipiti, para liberar a maior parte do seu líquido, que era aproveitado para se fazer o tucupi. A massa era torrada em recipiente circular de borda rasa e feita de barro.[47][48] Algumas tribos faziam a farinha apenas com a mandioca fresca.[54] Produziam mais dois tipos de farinha, a de guerra que continha apenas mandioca fresca e era muito cozida e a farinha mole feita de mandioca puba.[54] A primeira era também chamada de farinha seca e a segunda farinha d’água.[55] Tanto missionários como militares necessitados de farinha induziram os indígenas a produzir para eles, de certa forma obrigando-os a fazer cada vez roças maiores de mandioca.[39]
- Idizinho — mingau de mandioca dos Kalapalo de Mato Grosso.[50]
- Kanapé — Os caiabis de Mato Grosso faziam um tipo de pão redondo recheado de amendoim, por eles chamado de kanapé. Para fazê-lo, socava-se mandioca ralada no pilão, passava-a pela peneira e a cozinhava com amendoim torrado inteiro e um pouco de mandioca doce. Quando atingia o ponto certo, a massa era deixada para esfriar e com ela eram feitos pães redondos que eram assados no moqueador. Na hora de comê-los, os pães eram esquentados no borralho, ficando torrados.[44]
- Ki-pú — líquido preparado com folhas de mandioca que eram deixadas para envelhecer por três ou quatro dias, sendo depois fervidas.[39]
- Mandioca assada — os índios também assavam a mandioca mansa inteira para comer.[54]
- Maniaca — caldo venenoso que sai da mandioca espremida. Depois de fervido, vira o tucupi.[50]
- Manicuera ou manipuera — era o líquido obtido quando se espremia a mandioca ralada e deixado em repouso por alguns dias ou esquentado para eliminar substâncias tóxicas. Era muito apreciado puro ou no caxiri. Com a adição de cará, batata-doce ou frutas, fazia-se uma sopa rala.[46]
- Mingau — os caiabis de Mato Grosso preparavam o mingau cortando a mandioca-doce em dois ou três pedaços sem descascar, ralando-a, espremendo-a e cozendo o suco por um longo período. Depois polvilho era acrescentado para engrossar. Outra maneira de o fazerem era ralando a mandioca doce e cozinhando-a em seu próprio líquido, onde era acrescentada farinha de milho ou de mandioca, além de batata-doce e cará cozidos e amassados.[44]
- Mingau pitinga — mandioca ralada misturada com leite (de vaca ou de coco) e levada ao fogo, para engrossar.[56]
- Mingau de tapioca — a tapioca era cozida em água até formar uma substância gomosa, onde era acrescentado sal, açúcar ou suco de frutas. Os tucanos da Amazônia ingeriam este mingau pela manhã.[46]
- Pão de mandioca — os crixanás de Roraima faziam um pão de mandioca que era assado no moqueador e depois comido dissolvido na água.[52]

- Pão de guerra — feito por índios de Itacoatiara, no Amazonas, o pão de guerra, cuja matéria-prima era a farinha de mandioca, apresentava a superfície esverdeada devido aos fungos e algas que nela se desenvolviam quando era armazenado.[48]
- Paparuto — bolo salgado feito de macaxeira (mandioca-doce) e carne de caça dos timbiras do Maranhão, Pará e Tocantins. Sobre o centro de folhas de bananeira brava dispostas em cruz espalha-se a macaxeira ralada. Sobre esta, pedaços de carne de caça com cerca de duzentas gramas são colocados e cobertos com macaxeira ralada. Os braços da cruz são dobrados sobre a massa, formando um quadrado de um metro de lado e alguns centímetros de espessura, que é amarrado com embira. Pedregulhos bem quentes, por terem ficado sobre a lenha de uma fogueira, são espalhados pelo chão e o pacote com a massa é colocado sobre eles. O pacote recebe outros pedregulhos quentes por cima e tudo é recoberto com folhas de bananeira brava e acima delas são depositadas folhas de palmeira. Por fim, tudo é recoberto com terra, assim permanecendo toda a noite. O paparuto pode ser feito com outro tipo de carne ou com peixe e a massa pode ser de milho ou favas.[57]
- Pisaregue — pão de mandioca dos calapalos de Mato Grosso.[50]
- Polvilho — o líquido que escorre da massa da mandioca é deixado decantar, formando um pó fino no fundo do recipiente.[47] Quando o pó era cozido, tornava-se um alimento semelhante ao beiju.[47]
- Tapioca — o polvilho é lavado, decantado várias vezes, em seguida é secado e passado em chapa quente, quando forma grânulo.[44][47]
- Tucupi — líquido que escorria da massa prensada da mandioca puba, que depois era fervido até tornar-se uma substância xaroposa e escura, sendo chamado de tucupi preto. Quando o líquido era temperado com sal, pimenta e alho e exposto ao sol, era chamado tucupi simples, e, quando fervido moderadamente, de tucupi cozido. Servia de molho para todo tipo de carne.[46][47][51]
Produção de combustíveis
editarNo início do Proálcool, nos anos 1970, a mandioca foi considerada como uma possível matéria-prima para a produção de álcool combustível no Brasil.[58] Pesquisas brasileiras indicam que o amido da mandioca pode ser usado na produção do hidrogênio verde[59] (ver: Bio-hidrogénio e Produção biológica de hidrogênio).[60]
Ver também
editar- Fabricação de farinha de mandioca
- Farinha múltipla ou Farinha multimistura
Referências
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Bibliografia
editar- LOPES, Sônia. Bio Introdução ao estudo dos seres vivos, 1999, Editora Saraiva, 4ª edição



