Incêndio no Cinema Rex

Incêndio no Cinema Rex faz referência a uma tragédia ocorrida no dia 19 de agosto de 1978, na cidade de Abadã (em persa آآبادان), na província do Cuzistão, no Irão, quando um incêndio provocou a morte de centenas de pessoas que frequentavam uma sessão no Cinema Rex. O número de vítimas varia consoante as fontes bibliográficas.[1]

Cinema Rex em Abadan após o incêndio
Notícia num jornal iraniano sobre a tragédia em Abadan

Este evento tem sido fonte de polémica desde 1978. O primeiro-ministro do Irão da época, Jamshid Amouzegar, fiel ao monarca Mohammad Reza Pahlevi, relatou que foram militantes islamitas radicais que puseram fogo, enquanto os militantes opositores acusaram a polícia secreta do regime, a SAVAK, de ser a responsável por aquele crime bárbaro.[2][3] Mais tarde foi revelado que foram militantes islâmicos ligados a Ali Khamenei que atearam o fogo no cinema Rex.[4][5][6][7]

Noticia no jormal Ettela'at

Número de mortes

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Há especulação sobre o número de vítimas do atentado incendiário. Alguns dos números incluem 400,[8] 410,[9] 430 e mais de 800.[10] A National Fire Protection Association, uma fonte conceituada no que diz respeito a informações sobre incêndios lista o número de mortos em 422.[11]

Segundo um relatório da Amnistia Internacional de 1980, foram 438 vítimas, incluindo as pessoas que foram injustamente condenadas à morte depois do incêndio, como o capitão Taheri, que segundo consta, nem sequer estava nessa cidade no dia do evento.[12]

De acordo com Daniel L. Bynam, no jornal Washington Post, em 2007, este foi o "segundo mais mortífero ataque terrorista da história contemporânea, depois dos Ataques de 11 de setembro de 2001 (2996 mortos) levados a cabo pela Al Qaeda ", mas que já foi ultrapassado ainda nesse ano pelos ataques bombistas contra as comunidades yazidi no Iraque, em Qahtaniyah e Jazeera, que provocaram 796 mortos.

Motivos e responsabilidades

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Tem havido numerosas interpretações sobre as circunstâncias que conduziram ao fogo posto no Cinema Rex, contudo foi mais um evento inserido na revolução iraniana, iniciada em fins de 1978 e concluída em 1979, com a fuga do xá (janeiro de 1979), a deposição do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar e a proclamação do regime teocrático em fevereiro de 1979. Islamitas radicais e apoiantes da monarquia culpam-se mutuamente pelos acontecimentos.

Tese dos islamitas radicais

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Os revolucionários alegaram que foram agentes secretos da temível polícia secreta SAVAK que estavam perseguindo as pessoas que foram ao cinema e usaram isso como uma oportunidade para se esconderem entre a multidão no cinema e provocar a morte de opositores políticos. Mais tarde, os agentes da SAVAK decidiram sair e trancaram as portas. Incapazes de fugir do edifício, todos que se encontravam dentro do cinema morreram vítimas do fogo. É essa ainda a tese defendida pelos apoiantes do regime teocrata que governa o Irão desde 1979.[13]

Tese dos apoiantes da monarquia

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Para os defensores da monarquia ou opositores do xá, mas que ficaram desiludidos com as proporções que a revolução tomou, nomeadamente na islamização radical da sociedade, quase todos exilados, em especial nos Estados Unidos, a culpa foi dos islamitas radicais que perpetraram o crime e espalharam o rumor de que foi o xá e a SAVAK a cometer o crime. Os islamitas terão feito com que o povo iraniano passasse a odiar cada vez mais o xá e o seu regime. Segundo eles, o povo iraniano caiu nessa trapaça, tendo sido vítima de uma lavagem cerebral por parte dos islamitas.[14]

Na altura do incêndio, o jornal iraniano "Sobhe Emruz" apontou as culpas aos radicais islâmicos no editorial, "Não nos façam afastar de quem esteve por detrás do incêndio do Cinema Rex". Esta acusação fez com que fosse encerrado pouco tempo depois.

Ameaça do cinema aos extremistas

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Os islamistas eram contra o cinema em geral, especialmente o aumento das cenas de sexo nos filmes que os preocupava. Outros cinemas também foram alvo deles. Em entrevista a Kayhan, o aiatolá Lahouti disse que o cinema Qom foi  por ordem de Ahmad Khomeini. Incendiar cinemas era um problema comum desde 1969, enquanto nenhuma mesquita ou local sagrado era incendiado ao mesmo tempo. Farajollah Salahshoor, um cineasta religioso iraniano, disse: "Sabíamos bem que o cinema era um canal para a entrada da cultura ocidental, eu queimei cinemas como outros antes da revolução. Infelizmente, após a revolução, museus foram construídos para esses cinemas e o cinema é apoiado."[15]

Em entrevista a Hossein Dehbashi, Mohsen Safaei Farahani afirmou que a pessoa responsável pelo incêndio ".. tornou-se membro do Parlamento após a Revolução Islâmica".  Alireza Nourizadeh, jornalista que se reunia com o ministro da Inteligência na época, citou o ministro da Inteligência: "Nossas informações mostram que a ordem do Cinema Rex em chamas veio de Najaf." (Najaf era um dos principais centros do Islã xiita). Nourizadeh mencionou o nome que o Sr. Aameri Tehrani disse ser "... O Senhor Mohammad Kiavash que mais tarde se tornou membro do Parlamento. O Sr. Kiavash estava em contato com o principal suspeito, Hossein Takbalizadeh, e também com clérigos de Najaf."[16]

De acordo com Daniel L. Byman, um especialista em assuntos do Médio Oriente "Os filmes eram uma afronta a Deus, encorajando o vício e a decadência do estilo de vida ocidental. Portanto, segundo este autor, "em agosto de 1978, quatro xiitas revolucionários trancaram as portas no Cinema Rex na cidade iraniana de Abadã e puseram fogo" . Os bombeiros se atrasaram e os hidrantes/bocas de incêndio próximos não funcionaram. Os gritos das vítimas podiam ser ouvidos enquanto bombeiros e policiais ficavam do lado de fora, assistindo impotentes. Pelo menos 377 pessoas — talvez muitas mais — foram queimadas vivas."[17]

O caso a seguir à revolução

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De acordo com o Washington Post-baseado em IranRights.org, as famílias das vítimas seguiram o caso e o novo governo revolucionário prendeu o capitão Monir Taheri. O tribunal revolucionário de Rudsar acusou o capitão Taheri de ter recebido treino de guerrilha nos Estados Unidos ter participado no incêndio e ainda por cima recebera uma medalha de honra por ter supostamente ajudado a atear o fogo. Por outro lado, a defesa afirmou que ele nunca tinha visitado a cidade de Abadã, insistindo que ele estava em Ahvaz na altura do incêndio. Apesar dos argumentos da defesa, o fa(c)to é que o tribunal revolucionário considerou-o culpado e foi executado pouco tempo depois em 23 de fevereiro de 1979.[18]

De acordo com o Washington Post baseado no IranRights.org:

No dia a seguir à execução do capitão Taheri, a sua família declarou a inocência dele numa carta aberta publicada na imprensa e contou com a ajuda de colegas dele testemunhando a sua não culpabilidade. A carta também refutava alegação de que ele tivesse participado em ações de guerrilha nos Estados Unidos e referiram que ele nunca tinha viajado para fora do Irã. A carta refutava a acusação sobre o incêndio do Cinema Rex, pois o capitão Taheri jamais estivera em Abadã e que havia documentos provando que naquela altura estava de férias noutro local. A Medalha de Honra, foi-lhe dada antes do incêndio do Cinema Rex e não depois.

Julgamento

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Antes da revolução

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Embora rumores iniciais culpassem o xá e a SAVAK pelo incêndio, após a revolução, mais evidências sugeriam que a equipe de quatro criminosos estava indiretamente em contato com clérigos xiitas. A ordem veio deles.  Mohammad Nourizad relata que o aiatolá Nouri Hamedani é um dos rostos por trás do incêndio criminoso.  Quando questionado sobre o motivo, o aiatolá Nouri Hamedani foi citado dizendo que o silêncio do povo da província Cuzistão foi o motivo por trás do incêndio do Cinema Rex. Eles queriam que os funcionários da Companhia Nacional de Petróleo Iraniana se juntassem aos ataques contra Mohammad Reza Pahlavi.  O governo, no entanto, permaneceu em silêncio e não prosseguiu com o processo. Houve discussões de que as pessoas não acreditariam na verdade se fossem informadas pela SAVAK. Também havia a crença de que o governo da época permaneceu em silêncio porque ainda tinha esperança de restabelecer boas relações com os clérigos.

Depois da revolução

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Depois de uma campanha pública encabeçada pelas famílias do incêndio do Cinema Rex, um tribunal revolucionário (entre 25 de agosto e 4 de novembro de 1980) julgou 27 indivíduos, incluindo o único sobrevivente do grupo de quatro homens que perpetraram o incêndio. Depois de várias deliberações, Hossein Takbalizadeh, o único incendiário sobrevivente e cinco outros foram condenados à morte.

"Em sua defesa, o principal réu admitiu ter iniciado o incêndio com ajuda de outros três incendiários e negou que tivessem alguma conexão com os serviços secretos do xá”.[12] Muitas famílias acreditaram que o principal grupo que estava liderando os incendiários envolvidos na tragédia escapou à justiça.

Julgamento e execução do capitão Monir Taheri

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Depois do sucesso das forças revolucionárias, foram criados tribunais revolucionários islâmicos. Membros do regime do xá ou militares que foram incapazes de fugir ou decidiram não sair do país foram muitas vezes sujeitos a julgamentos e a acusações sem fundamento (como o caso flagrante do capitão Taheri, em que todas as acusações contra ele eram falsas, pois nem sequer se encontrava em Abadã no dia do incêndio). Esta foi a finalidade de subjugar uma população sedenta pela justiça revolucionária. O encerramento do caso (não interessa quais os resultados) foi vital não apenas para legitimar a capacidade do novo governo para cumprir os apelos públicos, mas também para esmagar qualquer forma de revivalismo monárquico.

Antes da sua execução por fuzilamento em 23 de fevereiro de 1979, o tribunal aceitou os quatro pedidos de Taheri, incluindo não ser vendado, evitar ser fotografado durante a execução, dar ordem pessoal para ser fuzilado e entregar o corpo à sua família.[12]

Livros e referências

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Dillip Hiro, autor da obra Iran Under the Ayatollahs (1985) afirmou que os grupos anti-xá não foram os prováveis causadores do fogo, visto que o cinema Rex estava localizado num bairro de classe operária e ainda por cima o filme exibido na noite da tragédia Gavaznha ("O Cervo)era uma crítica implícita ao governo do xá; Hiro disse que o filme Gavaznha "passou pela censura, mas com dificuldades consideráveis. Hiro disse que o deliberado encerramento das portas do cinema e os esforços no combate ao incêndio que Hiro considerou "tépidas" (os bombeiros levaram mais de 20 minutos a chegar ao cinema), fortaleceram a crença pública de que o xá mandara pegar fogo ao cinema e contribuiu para aumentar o descrédito e a ira popular contra a monarquia.[3]

Segundo o especialista em Médio Oriente Daniel L. Byman, "Os filmes eram uma afronta a Deus, incentivando o vício e a decadência ao estilo ocidental. Assim, em agosto de 1978, quatro revolucionários xiitas trancaram as portas do Cinema Rex na cidade iraniana de Abadan e incendiaram o teatro."

De acordo com Roy Mottahedeh, autor da obra The Mantle of the Prophet (O Manto do Profeta"), "milhares de iranianos que tinham sido neutrais na luta entre o xá e os apoiantes dos religiosos conservadores sentiram que o governo punha as suas próprias vidas em risco para se manter no poder. Subitamente, para centenas de milhares de iranianos o movimento passou também a ser seu".[19]

Como o evento teve lugar durante o período revolucionário, é muito difícil saber quem perpetrou o incêndio. Muitos dos elementos do bloco revolucionário lançaram as culpas para Maomé Reza Pálavi, o agora deposto monarca do Irão e as SAVAK (Sazeman-e Ettelaat va Amniyat-e Keshvar), o serviço secreto do país até ao governo de Shapour Bakhtiar que a dissolveu. Se bem que nenhumas provas tenham sido encontradas para apoiar essa tese, o fa(c)to é que teve fortes implicações no desenrolar da revolução. As circunstâncias no qual o fogo foi ateado também não ajudaram os pontos de vista do xá e do seu governo, segundo os quais a culpa era dos islamitas radicais. O tempo e a localização do incidente (um bairro empobrecido da cidade de Abadã) não coincidia com os anteriores focos de protesto, o que aumentou o nível de suspeita da opinião pública contra o monarca, a polícia secreta e o governo da época. Também se acreditou na época no rumor segundo o qual o xá pôs sob mira o Cinema Rex para matar políticos dissidentes que se tinham reunido para ver um filme anti-governo chamado Gavaznha ("O Corço"), cujo principal intérprete era o bem conhecido a(c)tor iraniano Behrouz Vossoughi.[20][21]

Também é certo que Khomeini não gostava de cinema (tal como da música pop que ele proibiu), ele odiava-o, via nele um agente para corromper a juventude iraniana com valores da sociedade ocidental que ele considerava ruim, por isso o envolvimento de grupos islamitas radicais neste atentado não pode ser posto de parte, pois muitos cinemas durante a Revolução Iraniana foram encerrados, incendiados e demolidos.[22] Por exemplo: em Teerão, existiam antes da revolução 23 cinemas, mas 19 foram incendiados pelos islamitas na sequência dos violentos protestos anti-xá e contra o mundo ocidental (Estados Unidos e Europa) que tinha apoiado o xá quase até ao fim e que segundo os islamitas eram a causa de todos os males que o Irã vivia.


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O incêndio do Cinema Rex é retratado na banda desenhada Persepolis, de Marjane Satrapi.  Em " The Lion Women of Tehran "( tradução literal: "As Mulheres Leão de Teerã(o)", de Marjan Kamali, Abdol é morto no incêndio enquanto visitava seu primo.[23]

Ligações externas

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Media relacionados com Incêndio no Cinema Rex no Wikimedia Commons

Referências

  1. Stay informed today and every day (3 de novembro de 2012). «Iran: In with the madding crowd». The Economist. Consultado em 2 de março de 2014
  2. Daniel, Elton L. and Mahdi, Ali Akbar (2006) Culture and Customs of Iran Greenwood Press, Westport, Connecticut, page 106, ISBN 0-313-32053-5
  3. 1 2 Hiro, Dilip (1985) Iran Under the Ayatollahs Routledge and K. Paul, London, page 74, ISBN 0-7100-9924-X
  4. Afkhami, R. Gholam (2009) The life and times of the Shah University of California Press, page 465 & 459, ISBN 0-520-25328-0
  5. Ansari, M. Ali (2007) Modern Iran: the Pahlavis and after Pearson Education, page 259, ISBN 1-4058-4084-6
  6. Federal Research Division (2004) Iran A Country Study Kessinger Publishing, page 78, ISBN 1-4191-2670-9
  7. Bahl, Taru, Syed, M.H (2003) Encyclopaedia of the Muslim World Anmol Publications PVT. LTD., 2003, page 105, ISBN 81-261-1419-3
  8. Haghighat, Mamad (2000). «After the revolution: the cinema will carry us - cinema flourishes in Iran». Find Articles. Consultado em 21 de agosto de 2006
  9. «The Iranian Revolution: King Pahlavi (the Shah) against Dissent». MacroHistory: The Prehistory to the 21st Century. Consultado em 21 de agosto de 2006
  10. «The Real Iranian Hostage Story». Venus Project. Consultado em 21 de agosto de 2006. Arquivado do original em 12 de agosto de 2006
  11. «Important dates in fire history». National Fire Protection Association. Consultado em 21 de agosto de 2006[ligação inativa]
  12. 1 2 3 «One person's story: Mr. Monir Taheri». Boroumand Foundation. Consultado em 21 de agosto de 2006. Arquivado do original em 10 de janeiro de 2007
  13. «Arson fire at Rex Cinema in Abadan by monarchist agents». Navideshaded.com. 19 de agosto de 2014. Consultado em 29 de junho de 2018
  14. «Fire in Cinema Rex in Abadan - crime of century.». Iranian.com. Consultado em 11 de maio de 2015
  15. «اندازه‌ای که سینما آتش زده‌اید، آیا سینما هم ساخته‌اید؟». Tabnak (em persa). 13 de fevereiro de 2013. Consultado em 12 de abril de 2026
  16. «بازخوانی پرونده سينما رکس پس از ۳۰ سال» [‎Relendo o caso do Cinema Rex após 30 anos‎]. Radio Farda (em persa)
  17. Byman, Daniel L. (6 maio de 2007). «The Rise of Low-Tech Terrorism». Washington, DC. www.washingtonpost.com
  18. «Mr. Monir Taheri - Iran Human Rights Memorial». Iranrights.org. Consultado em 2 de março de 2014
  19. Mottahedeh, Roy (2004). The Mantle of the Prophet: Religion and Politics in Iran, page 375.
  20. «The unvanquished». Behrouz Vossoughi.com. Consultado em 11 de maio de 2015. Arquivado do original em 23 de outubro de 2006
  21. «The hero and the heroin». Payvand. Consultado em 21 de agosto de 2006
  22. «Lecture:Postrevolutionary Destruction and Rebuilding of Iranian Cinema». Socialhistory.org. 2015. Consultado em 14 de maio de 2015
  23. KAMALI, Marjan (2024). The Lion Women of Tehran. New York City, New York: Gallery Books/Simon & Schuster,. pp. 218–221. ISBN 9781668036587

Bibliografia

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  • Mottahedeh, Roy P. - The Mantle of the Prophet: Religion and Politics in Iran, Oxford, Oneworld, 2000.
  • Byman, Daniel L. The Rise of Low-Tech Terrorism, Washington Post, 6 maio de 2007: B03.

Ligações externas

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