Emergente
Emergente pode referir-se a:
- Emergência
- Emergência — fenômeno em que um sistema exibe propriedades ausentes em seus componentes individuais
- Emergência médica — situação clínica que exige atenção imediata
- Filosofia e ciências
- Emergentismo — corrente filosófica que estuda propriedades emergentes
- Comportamento emergente — padrões complexos gerados pela interação de elementos simples
- Mecânica quântica emergente — interpretação da mecânica quântica como fenômeno emergente
- Tecnologia
- Tecnologias emergentes — inovações técnicas em fase de adoção crescente
- Lista de tecnologias emergentes — lista de desenvolvimentos tecnológicos contemporâneos
- Economia e geopolítica
- Mercados emergentes — economias nacionais em fase de desenvolvimento acelerado
- Potência emergente — nação em ascensão no cenário geopolítico internacional
- Cultura e religião
- Igreja emergente — movimento cristão pós-moderno do final do século XX
- Estratégia emergente — conceito de Henry Mintzberg sobre estratégia adaptativa
- Entretenimento
- Jogabilidade emergente — comportamentos não planejados surgidos em jogos
Em filosofia, biologia e ciências da complexidade, emergente é o adjetivo que descreve propriedades, padrões ou comportamentos que surgem de um sistema como um todo, mas que não estão presentes — nem são previsíveis — a partir do exame isolado de seus componentes individuais.[1] O conceito é central nas ciências da complexidade, na filosofia da mente e na biologia evolutiva, e atravessa disciplinas que vão da física à sociologia.
A noção pode ser resumida pela formulação atribuída a Aristóteles: o todo é mais do que a soma das partes.[2] Embora essa ideia percorra a história do pensamento ocidental, o uso técnico do termo "emergente" é relativamente recente.
Origem do termo
editarO adjetivo "emergente" no sentido científico e filosófico foi cunhado pelo filósofo e crítico britânico George Henry Lewes em 1875, na obra Problems of Life and Mind.[3] Lewes distinguiu dois tipos de resultado quando elementos se combinam: os resultantes, que podem ser calculados a partir das partes, e os emergentes, que não podem — pois representam algo qualitativamente novo.
O conceito foi desenvolvido nas décadas seguintes pelos chamados British Emergentists. O psicólogo e filósofo C. Lloyd Morgan formalizou a ideia em Emergent Evolution (1923),[4] argumentando que a evolução produz níveis qualitativamente distintos de organização — matéria, vida e mente — cada um com propriedades irredutíveis ao anterior. No mesmo período, C. D. Broad sistematizou a tipologia das propriedades emergentes em The Mind and Its Place in Nature (1925),[5] distinguindo propriedades que emergem de configurações específicas de seus componentes.
A raiz etimológica é o latim emergere ("vir à tona", "surgir da água"), o que captura visualmente a ideia de algo que se manifesta a partir de um substrato que, por si só, não o continha.
Propriedades emergentes
editarUma propriedade é considerada emergente quando satisfaz dois critérios básicos: (1) ela pertence ao sistema como um todo, não às suas partes individualmente; e (2) ela não era dedutível a priori do conhecimento sobre as partes.[1] Exemplos amplamente citados na literatura incluem a consciência gerada por neurônios, a liquidez da água gerada por moléculas de H₂O, e os padrões de movimento de um bando de estorninhos gerados por regras simples de comportamento individual.[2]
A literatura filosófica distingue ao menos dois tipos principais:
- Emergência fraca: a propriedade emergente é, em princípio, derivável das partes por cálculo suficientemente complexo, mas na prática não é prevista a partir delas. O filósofo Mark Bedau desenvolveu essa noção em seu trabalho sobre sistemas adaptativos.[6]
- Emergência forte: a propriedade emergente é genuinamente irredutível às partes, mesmo em princípio. Essa forma é mais controversa e associada a debates sobre a filosofia da mente e o problema difícil da consciência.[1]
Outros usos
editarO adjetivo "emergente" é também amplamente empregado em contextos econômicos e geopolíticos, sem relação direta com o sentido filosófico-científico. Fala-se em mercados emergentes para designar economias nacionais em acelerado processo de industrialização e integração ao sistema financeiro global, e em potência emergente para nações que ampliam progressivamente sua influência internacional.[7]
Nesse uso, "emergente" retém a ideia de algo que vem à tona ou se torna visível, mas perde o conteúdo técnico de irredutibilidade às partes.
Ver também
editarReferências
editar- 1 2 3 «Emergent Properties». Stanford Encyclopedia of Philosophy. 2023. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 «Emergence». Internet Encyclopedia of Philosophy. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ Lewes, George Henry (1875). Problems of Life and Mind. Londres: Trübner & Co.
- ↑ Morgan, Conwy Lloyd (1923). Emergent Evolution. Londres: Williams and Norgate
- ↑ Broad, Charlie Dunbar (1925). The Mind and Its Place in Nature. Londres: Kegan Paul
- ↑ Bedau, Mark A. (1997). «Weak Emergence». Philosophical Perspectives. 11: 375–399. doi:10.1111/0029-4624.31.s11.17
- ↑ «Emerging Markets: Resilience and Growth Amid Global Turmoil». Finance & Development. Fundo Monetário Internacional. Consultado em 17 de janeiro de 2026