Abstract
Este ensaio propõe uma reflexão filosófica sobre racismo, lugar de fala e silenciamento a partir de uma experiência de coautoria entre uma doutoranda negra e um doutor branco. O texto assume a forma do diálogo, entendendo que a própria escrita pode constituir gesto filosófico e não apenas veículo neutro de exposição conceitual. A partir das experiências situadas dos autores, examina-se o conceito de lugar de fala, sobretudo em sua relação com as condições históricas de apagamento e deslegitimação das vozes negras, em especial das mulheres negras. Em seguida, a análise aproxima esse debate da fenomenologia do sofrimento em Paul Ricoeur, destacando a relação entre sofrimento, impossibilidade de agir, ruptura da narração de si e afastamento radical dos outros. Nesse quadro, a máscara de Anastácia, tal como apresentada por Grada Kilomba, aparece como figura exemplar do silenciamento: não apenas metáfora histórica, mas imagem viva da interdição da palavra, da ação e do reconhecimento. O ensaio sustenta que, quando pensado a partir da experiência do racismo, o lugar de fala revela lugares de não-fala e de silenciamento. Conclui-se que uma filosofia comprometida com a realidade brasileira que deve abrir espaço para formas de escrita, linguagem e pensamento capazes de acolher epistemologias historicamente marginalizadas.