Escritos 33 (70):1-14 (
2025)
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Abstract
O presente artigo examina a dimensão estética e simbólica da música popular como uma forma de poesia viva e coletiva. O problema abordado é a subvalorização acadêmica da canção popular em relação à poesia escrita, apesar de ambas compartilharem estruturas rítmicas e funções expressivas equivalentes. O objetivo consiste em demonstrar que a música popular constitui um espaço poético no qual convergem o emocional, o ético e o social, tornando-se uma via de conhecimento sensível e constitutiva da identidade cultural. O marco conceitual recorre às contribuições de Octavio Paz, que concebe o ritmo como revelação poética, e de Carlos Monsiváis, para quem a canção popular atua como arquivo da memória coletiva. A pesquisa adota uma metodologia analítico-hermenêutica, baseada no exame textual e performativo de letras e estilos interpretativos de diversos gêneros latino-americanos (tango, bolero, ranchera, nueva trova), os quais conseguem captar emoções universais —amor, nostalgia, traição e resistência —que, em sua aparente simplicidade, ocultam uma complexidade poética. Além disso, a interpretação do artista, sua voz e os arranjos transformam cada canção em poesia viva. Os conceitos desenvolvidos mostram que a canção popular integra recursos literários —símbolo, imagem, narratividade e musicalidade— em estruturas comunicativas que transformam a experiência cotidiana em expressão estética. Conclui-se que a música popular democratiza a poesia ao transferi-la de espaços elitistas para o âmbito comunitário, preservando sua potência emocional e reflexiva. Propõe-se reconhecer a canção como veículo de pedagogia sensível e como patrimônio cultural que articula memória, beleza e pertencimento coletivo.