hirenkoi wrote in house_br

DE: Lara PARA: Renata

Título: Por quase um segundo
Classificação: PG
Resumo: O que aconteceu depois de Birthmarks?
 
 
Não, o mundo não parou. Desculpa, o mundo não parou, era só um abraço, era um abraço de amigos, era um abraço do Wilson, pelo amor de Deus. Ele só estava voltando. Depois da Amber, depois de tudo que ele tinha feito, depois dos meses terríveis (terríveis!) em que ele esteve fora, ele só estava voltando.
 
House podia lidar com isso. Podia lidar com um abraço. Wilson estava tão confortável em seus braços, tão quentinho, tão suave, tão, tão Wilson, os nós dos dedos apertando suas costas de um jeito que ele nunca tinha feito antes mas que, absolutamente, não tinha feito o mundo parar. Não tinha feito House ter estrelinhas diante dos olhos.
 
Não se lembrava da última vez que Wilson havia abraçado-o. Cristo, não se lembrava nem se eles já tinham se abraçado algum dia dessa stupid, screwed-up friendship. Era sempre sem muitos contatos. Ele era tão carinhoso com as mulheres que conhecia, todo abraços e beijos e "você vai morrer em seis meses, mas eu te pego às oito no sábado então?"... Mas com House não, e ele tinha ficado bem com isso até hoje. Ele gostava da falta de contato, na medida do possível. House tinha reações deveras destrutivas a maioria das pessoas que tentavam ter algum contato com ele. Ele não queria droga de contato.
 
Mas. E essa agora.
 
Wilson não estava abraçando-o. Era ilusão. Era carência. Era uísque.
 
Eles tinham ido comer alguma coisa depois do épico, porém cansativo, dia do funeral do seu pai. Não. Seu pai não. Ele sabia quem era seu pai e não era aquele... ele não tinha pai. Não sabia ter pai.
 
Era inocente, era normal, era perfeitamente não-tedioso, como tudo o que fazia com o amigo. Ele tinha que ir lá e romper a normalidade. Wilson tinha que ir lá e quebrar a ordem perfeita das coisas.
 
Wilson tinha que ir lá e abraçar House pela primeira vez.
 
Um abraço bêbado, ridículo, desajeitado, desesperado... Ele podia empurrá-lo e o amigo cairia no sofá rindo, dizendo alguma sobre as origens da aversão de House a contatos, ao que House responderia que se ele citasse Freud, o bateria.
 
Aí, Wilson provavelmente diria que não, não citaria Freud. A não ser que House quisesse comer a mãe. Só assim eles teriam um problema.
 
Eles ririam. Pediriam mais uma ou duas rodadas de pizza. Pediriam mais umas trinta e seis ou trinta e sete rodadas de uísque.
 
Maldito abraço.
 
Paralisado, House não devolvia os braços do amigo. Estava lá, congelado, esquisito, os olhos arregalados, sem entender, só sentindo. Wilson estava usando perfume? Colônia? Pós-barba? Era alguma coisa que cheirava muito bem, e House se aproximou um pouquinho, hesitante, enquanto o bêbado continuava ali, abraçando-o com força, que diabos.
 
Sua barba mal feita encostou em Wilson, e ele pareceu gostar. Para a surpresa de House, Wilson se aninhou mais ainda em seus braços, e, Jesus, isso que ele sentia eram LÁGRIMAS?
 
- Wilson.
 
Ele não respondeu.
 
- Wilson. Solta.
 
Mas Wilson estava ali, inabalável. Era uma cena muito estranha. Dois homens de meia idade parados no meio da sala, o mais novo abraçando o mais velho e, muito provavelmente, chorando.
 
- Pare de chorar. E me solte.
 
...
 
- Não me obrigue a usar a força.
 
...
 
- É sério, eu consigo alcançar minha bengala daqui.
 
...
 
- Wilson...
 
- Me abrace, seu idiota. - A voz dele estava embargada. Sim, Deus o ajude, estava chorando. 
 
House sentiu os músculos da barriga se contrairem de um jeito novo. Em que universo alternativo eles estavam mesmo?
 
- Sua mulherzinha. - e o abraçou de volta, colocando as mãos seguramente nos ombros do amigo.
 
E todas as estrelinhas, todos os fogos de artifício voltaram... a NÃO estar lá. Voltaram a não existir. Ele não estava se emocionando com um abraço idiota. Wilson não cheirava estupidamente bem, não estava se encaixando tão bem no seu corpo, não não não.
 
Exceto pelo fato de que estava sim.
 
E veio, veio aquela sensação absurda, aquele sufoco, aquela agonia, sim, aquela mesma que ele tinha sentido todos os dias que Wilson não estava lá. Aquele medo de perder o pouco que tinha. Aquele medo de perder tudo aquilo que tinha.
 
E House se viu mordendo os lábios pra não chorar também.
 
Pior. Universo. Alternativo. De todos os tempos!
 
Ele não podia chorar. Como diabos iria olhar na cara do Wilson depois disso?
 
Wilson estava de volta. Ele tinha voltado porque não, não tinha o direito de escolher se era amigo de House, isso estava fora de cogitação. House não só precisava de Wilson. Wilson precisava de House também. Ele era uma tragédia ambulante, com todas as suas gravatas medonhas e seu cabelo de escova e sua mania de sair pegando todas as mulheres que conseguisse, sua mania difícil de não conseguir deixar as calças fechada, de ser o salvador da pátria, aquele cara bonzinho de que todos gostam, a voz da razão...
 
Quem aguentava isso? Ele precisava de House, muito claramente.
 
Abraçou-o com força.
 
- Não faça mais isso, Wilson. - Disse ele, e, para seu alívio, não dava pra perceber que estava chorando.
 
O amigo deu um riso afogado em lágrimas, um riso de alívio.
 
- Eu te...
 
- Cala a boca. - E soltou, mas não estava com raiva. Só queria evitar ir a um lugar de onde eles não voltariam mais.  - Eu já te disse, não me faça bater em você.
 
Os dois riram.
 
E depois ficaram se olhando.
 
- Isso nunca aconteceu. - Disse Wilson. - Ok?
 
House abriu ainda mais o sorriso.
 
- Fechado. Mais uísque?